Certa vez um homem me confidenciou querer voltar para si mesmo. Este homem caminhara muito pela vida e, agora, não se reconhecia em tudo que já vivera. Planejar o projeto de si mesmo parecia um impossível caminho a seguir. Estava vazio e ao mesmo tempo congestionado; seria isto possível? Tudo para ele estava muito estranho. Eram tantas, tantas, coisas vividas, que nenhuma ponta da existência, nenhuma migalha poderia nele caber. Brigava com a mesmice do cotidiano e reconhecia que uma renovação era necessária. Precisava de algo que lhe restituísse a motivação no porvir.
  Lá estava ele. Eu o via, não havia a menor dúvida, e ele se via, mas isto não bastava. Considerava-se perdido. Bebia o café e o café desaparecia dentro dele. Dizia que não havia mais um si mesmo e ele se perguntou com uma ponta de nítida angústia: Porque era impossível reconhecer-se naquilo tudo que vivera? Seria ele a soma de todas as experiências vividas e não vividas? Assim somos todos nós?
  Tudo o que pensava se perdia diante daquela agonia passiva. Qualquer coisa se desfazia. Nada do vivido justificava o que sentia e tudo que vivera justificava. Ele queria viver. Viver no sentido, com sentido. Estava convencido: a sua busca estaria no silêncio, na quietude, na serenidade. Era como pausar o filme da vida e dizer: pára, pára tudo agora, porque agora eu vou respirar; olhar tudo, entender e então, somente então seguir o filme.
  Temos aqui várias questões: pode realmente o homem perder-se de si mesmo? Pode perder-se e apesar disto manter conhecimento sobre si? Do que realmente ele teria se perdido - da história percorrida ou da história a ser percorrida?
  Reconheço que inúmeras situações podem lançar o homem para longe de seu eu: grandes cidades, afetos difusos, onde o tempo nos dá a falsa impressão de nunca ser suficiente, daí corre-se o tempo todo e no fim do dia quem não cai exausto, leva sua exaustão a qualquer lugar buscando alívios de todo e qualquer tipo.
  Realmente parece fácil ficar dissociado entre quem se é, e quem se está, quem se quer ser, e quem se é. Por isso mesmo, se for necessário pare o filme e reflita: você pode pausar tudo e apenas respirar; respirar de modo absolutamente centrado. Você pode realizar cada pequena tarefa, cada atitude, conscientemente, integrando-se plenamente a ela. É preciso estar pleno, coerente a cada gesto, a cada palavra.
  Para não se perder de si mesmo, desafie-se nestas coisas. Assim, você vai prosseguir apropriado do sentido, trazendo para junto de si mesmo os afetos significativos, com cuidado, compromisso e respeito amoroso. Afinal, viver de modo saudável, feliz e bem vivido é fundamental.

Cristina Magnaghi (*) é formada em Psicologia pela Faculdades Metropolitanas Unidas, com especialização em Psicologia Hospitalar pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Psicologia Escolar pela Universidade de São Paulo. É autora do livro ‘‘Significados da Vida’’ (Editora Scortecci/São Paulo).

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