Rio, 31 (AE) - O ultimato dado ao PT pelo governador Anthony Garotinho (PDT) -exigindo que o partido se enquadre ou saia do governo- e a ameaça da vice-governadora Benedita da Silva de renunciar à candidatura à prefeitura - racharam a Articulação, tendência governista da legenda, e seus aliados. Eles se dividiram entre permanecer no governo e entregar os cargos, em reunião na noite da quinta-feira no Sindicato dos Bancários. Entre os dirigentes presentes, houve ligeira maioria pelo rompimento, assim como na maior parte dos discursos do encontro.
Se o chamado Campo Majoritário, formado pela Articulação e pequenos grupos aliados, mantiver o racha, a proposta de sair da administração será vitoriosa na reunião de domingo (02) do diretório regional. Nessa instância, a diferença é mínima -os governistas têm 25 votos, contra 24 dos demais grupos-, e basta um voto mudar de lado para dar a vitória ao outro. Segundo um participante da reunião de ontem (30), os governistas tentarão chegar ao diretório com uma posição unificada, provavelmente condicionada a uma declaração pública forte de Benedita de crítica ao governador e de defesa do partido.
Não foi essa, contudo, a disposição da vice-governadora no encontro, que transcorreu em ambiente tenso entre os partidários da saída e os adeptos da permanência, muitos ocupantes de cargos de confiança no Estado. Depois de um bombardeio de pronunciamentos pró-saída, ela fez um discurso emocionado, defendendo a permanência. "Vocês não respeitam os sonhos", disse. A vice-governadora afirmou que não faz sentido vencer a prévia (que decidiu que será ela a candidata à prefeitura) e sair do governo. Benedita condiciona sua candidatura à continuidade do PT no Estado.
"Mesmo o pessoal pró-saída ficou balançado (em dúvida)", relatou um participante do encontro, sob a condição de anonimato. O núcleo do PT governista que defende sair está concentrado, principalmente, entre sindicalistas.
Problemas - As tentativas de conciliação entre o PT e Garotinho, até agora, fracassaram. Uma reunião marcada pelo governador para hoje foi transferida para amanhã (01), mas o presidente do PT do Rio, Carlos Santana, já avisou que, por ter compromissos no interior, não vai. O encontro serviria para discutir pontos que não chegaram a ser abordados na quinta-feira
quando, na presença do presidente nacional do partido, José Dirceu, num almoço no Palácio Guanabara, Garotinho e os petistas se exaltaram e trocaram palavras duras.
"O PT, em vez de chegar e me trazer os problemas, vai primeiro para a imprensa", disse na reunião o governador, exaltado, segundo participantes. Ele acusou petistas de terem vazado para jornalistas informações que foram publicadas pela revista "Época", listando suspeitas de corrupção na administração e apontando supostas ligações com o governo.
Surpreendentemente, Benedita, no encontro, foi dura com o pedetista, com quem, até então, não explicitara divergências publicamente. "Se o senhor está sentado na cadeira de governador, deve isso ao PT também", disse ela. "O PT não quer só cargos, tem legitimidade, ajudou a eleger." Até o secretário do Planejamento, Jorge Bittar, normalmente calmo, se exaltou, embora defendesse a repactuação "com respeito" e mais diálogo. "O governador está se colocando de uma maneira muito solitária", afirmou. Em reunião na quarta-feira, o secretário defendera a saída.
Dirceu perguntou se seria possível fazer a conciliação, desde que houvesse respeito mútuo. Mais calmo, o governador chegou a brincar e reconheceu ter tomado decisões sozinho. Dirceu e Bittar apresentaram reivindicações do partido, entre elas implantação efetiva do conselho político e definição clara das instâncias de governo, como a relação entre coordenadorias e secretarias. Os coordenadores, mais próximos do governador, têm se sobreposto aos secretários. Isso seria discutido na reunião de hoje, que não ocorreu.

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