Arquivos high-tech do Holocausto revolucionam pesquisa
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 1999
por Janine Zacharia, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Jerusalém (AE-REUTERS) - Quando Willy Halpert tinha oito anos de idade ele ajudou seu pai a colocar ouro, prata, jóias e 80 mil libras britânicas em valises que foram enviadas da Bélgica para bancos suíços para estarem a salvo. O dia em que os nazistas levaram o pai de Willy, Maurice, para o campo da morte de Auschwitz, onde mais tarde pereceu, ele lembrou seu filho do envio. Mais de 50 anos depois, Halpert ainda está lutando para reclamar alguns dos bens de sua família. Mas com apenas comprovantes de depósitos rasgados mostrando uma assinatura, mas sem o nome de algum banco, ele deu de cara com uma parede a cada passo.
"Participei pessoalmente do preparo do ouro e das jóias para serem embarcados para o transporte e fui informado pelo meu pai no dia de sua prisão sobre a quantia de dinheiro que ele depositou", disse Halpert em sua casa no Canadá. Até o dia de hoje sua busca, como a de milhares de outros judeus cujas famílias foram despojadas de seus bens pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, foi atrapalhada pela relutância dos bancos suíços em melhorar o sistema de armazenamento dos arquivos do Holocausto.
Agora a Comissão Volcker, criada para investigar as contas dos bancos suíços do período da Segunda Guerra Mundial, veio ao auxílio destas pessoas, ordenando a digitalização dos arquivos do memorial do Holocausto Yad Vashem, em Israel, o maior depósito de testemunhos, alguns deles em pedaços de papéis escritos, como o que Halpert tem. Enquanto várias partes do mundo se tornaram high tech, os arquivos do Yad Vashem ficaram presos no passado. A esperança é de que entrando com nomes em uma base de dados, auditores independentes combinando livros de bancos com as contas não- reclamadas da era do Holocausto possam ter mais facilidade em ligar fundos a possíveis donos que pereceram no genocídio nazista. Um equipamento rápido e moderno de US$ 8 milhões, financiado por bancos suíços de grupos judeus, está transformando um trabalho que poderia demorar anos em um projeto de dois meses, computadorizando cerca de três milhões de recordações de vítimas do Holocausto - dois milhões de testemunhos coletados de sobreviventes e parentes e um milhão de listas de várias fontes da Europa.
O projeto é o maior e mais significante para datar a história do Holocausto, dizem os historiadores que estudam o genocídio nazista de seis milhões de judeus durante a guerra. "Estamos falando de algo com um potencial revolucionário. Seremos capazes de contar as histórias de indivíduos, descobrir o que aconteceu, como as pessoas foram de campo em campo, de gueto em gueto", disse o historiador do Holocausto, David Silberklang.
A Comissão Volcker, liderada pelo ex-diretor do banco central norte-americano, Paul Volcker, não quis dizer quantas contas ou quanto dinheiro as investigações da comissão encontraram no último ano. Investigadores na Suíça disseram esperar encontrar entre 3.000 e 15.000 contas dormentes de vítimas do Holocausto, uma pequena porcentagem dos 2,5 milhões de contas da era da Segunda Guerra Mundial em bancos suíços. "Não há dúvida de que isso vai ajudar, a menos que os bancos tenham feito alguma besteira e apagado as contas", disse Efraim Zuroff, líder do escritório de Jerusalém do Centro Simon Wiesenthal de busca.
Um oficial próximo ao projeto que não quis se identificar disse que a Comissão Volcker já conseguiu ligar mais de três mil pessoas com buscas entre 500 mil nomes que o Yad Vashem tinha em disco e que foram submetidos à forma computadorizada. Outro meio milhão de nomes foram mandados nesta semana e mais dois milhões devem ser enviados no final de março, de acordo com uma porta-voz do Yad Vashem.
Quando o projeto estiver a todo o vapor na semana que vem, 1.000 digitadores, linguistas e especialistas na colocação de dados em computadores - muitos deles estudantes universitários trabalhando em meio período - irão trabalhar contra o relógio para atender ao prazo final, que é o dia 31 de março. "É um cemitério virtual", disse sobre os registros o chefe do escritório de informações do Yad Vashem, Michael Lieber.
Visando proteger a preciosa documentação escrita à mão, acumulada pelos últimos 50 anos por parentes daqueles que pereceram, as páginas estão primeiro sendo escaneadas para computadores antes de serem digitadas em uma base de dados computadorizada. "Pessoas dizem ´kaddish sobre estas páginas", disse Lieber, se referindo à reza judaica pelos mortos. "Elas são túmulos virtuais, então temos que ser muito cuidadosos para que nada aconteça a elas". A Tadiran Information Systems Ltd, de Israel, está fornecendo o software e os sistemas de computadores e irá monitorar a colocação das informações em três lugares de Israel.
Oficiais do Yad Vashem dizem que os benefícios do projeto ultrapassam muito a procura por contas em bancos suíços. Avner Shalev, presidente da diretoria do Yad Vashem, disse que companhias de seguros com requisições da era do Holocausto também mostraram interesse. Os arquivos podem ajudar os auditores a encontrarem requisitores ou seus parentes vivos. Ele disse que a base de dados deve estar acessível na Internet no final do ano.
O projeto Volcker é apenas o primeiro passo do que o Yad Vashem espera que se torne a mais completa base de dados computadorizada do povo judeu para registros do Holocausto. O Yad Vashem tem 55 milhões de páginas de documentação que vão de listas de deportações e registros de pessoas mortas em cada campo da morte até detalhes de unidades de assassinato nazistas e informações sobre comunidades judaicas aniquiladas. "A geração da Segunda Guerra Mundial está nos deixando, estão este é o momento", disse Shalev.


