Jerusalém, 29 (AE-AP) - Não houve êxodo do Egito, Josué não destruiu as muralhas de Jericó e o reino de Salomão era uma pequena dinastia tribal, afirma o arqueólogo israelense Zeev Herzog.
Em um artigo publicado ontem pelo jornal Haaretz, Herzog afirma que os achados arqueológicos não provam, e em muitos casos contradizem, as histórias bíblicas que descrevem o surgimento do povo judeu.
Colegas e críticos de Herzog aceitam algumas das evidências apresentadas por ele e questionam outras, mas advertem que a precisão da Bíblia, fator em que se baseiam as reivindicações judaicas pela terra de Israel, não é tão importante como os "mitos" que engendrou.
Herzog referiu-se às provas aceitas pela maioria dos arqueólogos de que não houve êxodo dos judeus do Egito na época em que a Bíblia afirma ter havido, e que Jericó caiu por etapas ao longo do tempo e não por um único ataque liderado por Josué.
O tema mais polêmico surge quando Herzog sustenta que as sementes do Estado judeu devem ser encontradas no século IX a.C.
quando grupos de pastores estabeleceram dois estados rivais, Judéia e Israel.
As escavações das cidades da supostamente majestosa época dos reis David e Salomão, um século antes, revelaram que as "cidades" consistiam apenas de vários edifícios espalhados e que os reinos eram pequenas dinastias tribais.
O arqueólogo da Universidade de Tel Aviv disse ainda que Jerusalém, a capital construída pelo rei David para governar um império que abarcava grande parte do atual Oriente Médio, era no máximo um pequeno feudo.
Outro arqueólogo, Ammon Ben Tor, da rival Universidade Hebraica de Jerusalém, crítico de Herzog e de sua escola de pensamento pós-modernista, disse que Herzog usa a arqueologia para fins políticos e para desafiar as lendas sobre as quais se baseou a fundação do Estado judeu.
Ben Tor concorda que "há muita glorificação na Bíblia"
mas destacou que as inscrições e escavações do século X mostram que os antigos hebreus haviam estabelecido um estado governado por David e Salomão, e que, ainda que não fosse majestoso, era substancial.
O parlamentar Tommy Lapid, defensor dos direitos seculares que acredita que humanos escreveram a Bíblia, acusou Herzog de tentar minar as bases educacionais e ideológicas do Estado e facilitar a propaganda dos inimigos de Israel que querem negar o direito dos judeus de estarem ali.
Segundo Lapid, a Bíblia contém muitos mitos mas seus fatos históricos básicos documentam as reivindicações judaicas sobre Israel e são a base da história, cultura, idioma e literatura judaicas.
O artigo de Herzog refere-se a descobertas arqueológicas
das últimas décadas, quando os arqueólogos israelenses começaram a procurar evidências físicas para os eventos bíblicos.
Os achados não atingiram a consciência pública, disse o arqueologista Moshe Kochavi da Universidade de Tel Aviv, porque os israelenses não estão preparados para abandonar seu mitos nacionais.
Kochavi disse que os livros apresentando estes achados encontraram veemente oposição de 30% dos israelenses judeus que definem-se a si mesmos como religiosos de alguma maneira, e que consideram a Bíblia como palavra de Deus.
Israelenses adultos e crianças regularmente fazem visitas arqueológicos que segundo os guias, provam que a verdade da Bíblia, e o governo investe recursos substanciais em escavações que podem revelar a evidência de referências bíblicos.

mockup