Argentinos votam de olho no Brasil Da enviada especial DENISE NEUMANN
Buenos Aires, 23 (AE) - A Argentina chega às eleições de amanhã (24) de olho no Brasil. A recuperação da economia brasileira é peça- chave do cenário externo cor-de-rosa de que os argentinos precisam para manter o programa de convertibilidade instituído há oito anos.
Os três principais candidatos à presidência - Fernando de la Rúa, da Aliança UCR-Frepaso, Eduardo Duhalde, do Partido Justicialista, e Domingo Cavallo, da Ação Pela República - fizeram campanha prometendo manter "um peso, um dólar". E no mercado financeiro há confiança nisso.
Não há nenhum sinal de fuga de capitais ou especulação. Pelo contrário: as reservas internacionais voltaram a crescer depois de dois meses de queda e, na sexta-feira, a bolsa subiu 2,12%, acumulando 26,4% no ano. Na média, o Banco Central da República Argentina manteve reservas de US$ 23,52 bilhões em setembro. Em 18 de outubro, esse valor estava quase 6% maior.
Também os depósitos em dólar continuaram a subir durante a campanha. Em agosto, o volume de dólares depositado em bancos argentinos era 15% maior que um ano antes. "Essa é a prova mais firme de que há uma grande confiança de que a convertibilidade será mantida", diz o economista-chefe do Banco BBV-Francés, Ernesto Gaba. "O primeiro sinal de desconfiança em uma economia é a saída de capitais", acrescenta Glória Sorensen, do mesmo banco.
No cenário desenhado pelo BBV-Francés, o próximo governo mantém o regime de convertibilidade, qualquer que seja o candidato eleito. As chances de manutenção, contudo, não dependem apenas das medidas internas que o presidente venha a tomar. Depende, fortemente, de um cenário externo positivo. E os sinais são de que os ventos vão soprar a favor da Argentina.
Gaba põe o Brasil em primeiro lugar. "É fundamental que o País vá bem, especialmente que estabilize sua política cambial e cresça dentro dos 3% a 3,5% que estão sendo previstos pelos economistas brasileiros." Se o Brasil crescer, a Argentina terá demanda para suas exportações e poderá, também, crescer. O BBV-Francés prevê uma recuperação de 2% no PIB argentino no ano 2000.
Além disso, outras moedas, como o euro e o iene, devem fortalecer- se perante o dólar, impulsionando exportações da Argentina. Depois do Brasil, os países da Europa são o maior destino das vendas externas do país. A ajuda externa será completada pela recuperação do preço das commodities (o país exporta petróleo, soja e trigo), por um ritmo mais acelerado de crescimento no mundo e uma provável ampliação da ajuda do FMI. A Argentina pode, por regras já estabelcidas, receber US$ 10 bilhões a curto prazo.
Nos cenários de outros economistas, como Martin Redrado, da Fundação Capital, e Roberto Lavagna, da Ecolatina, a melhora da economia mundial também aparece como elemento fundamental para o "colchão de tranquilidade" de que o país precisa até que as reformas comecem a dar resultado. Dois ajustes internos são quase consenso: combater o déficit fiscal e reduzir o "custo Argentina". O principal problema fiscal da Argentina não está no governo central, que é enxuto, diz Gaba. "Está nas províncias, onde o déficit tem crescido mais que no governo federal."
A possibilidade de combater o déficit com aumento de impostos - uma das estratégias usadas pelo governo brasileiro - é muito pouco provável. Além de medidas que disciplinem os gastos das províncias, devem ser adotadas medidas de combate à evasão fiscal. Há expectativa, também, de que a Aliança, se eleita, faça um corte mais profundo que o de 1,8 bilhão de pesos previsto no orçamento.
O segundo ajuste está relacionado à competitividade e à produtividade. A produtividade cresceu 29% na última década, segundo o economista Jorge Alberto Todesca. "Mas essa produtividade está muito concentrada nos setores com forte participação de empresas estrangeiras."
Os ganhos de competitividade deverão vir da redução de custos de contratação de mão-de-obra e de uma queda dos preços internos (especialmente de tarifas de serviços públicos, onde estão entrando novos concorrentes), além de uma redução no que os economistas chamam de "preços relativos". Gaba explica: a Argentina encerrará o ano com uma deflação de 1,5%; quando esta deflação é comparada à inflação internacional (média de 2% a 3%, dependendo do país) ou com a dos sócios diretos (como o Brasil), isso significa que os preços argentinos, em relação ao resto do mundo, diminuíram, tornando os seus produtos mais competitivos.
A receita esperada para a Argentina sair da crise, então, é uma pitada muito forte de cenário externo positivo, temperada com boas doses de ajuste interno, no qual os ingredientes principais são corte de gastos públicos e redução de preços internos. "Mas não dá para o novo governo ser gradualista, não dá nem para esperar a lua- de-mel, é preciso tomar as medidas na despedida de solteiro, como se diz aqui quando há urgência", brinca Glória.
Se esse quadro quase cor-de-rosa não se confirmar, os economistas do BBV-Francés acreditam que o cenário mais possível é a dolarização da economia. Como a maioria dos depósitos e dívidas já é em dólar, essa seria a alternativa menos traumática numa crise. Martin Redrado, da Fundação Capital, discorda: "A dolarização não elimina os riscos e não elimina a possibilidade fuga de capitais." O grande temor dos investidores, observa, está sempre relacionado ao risco de não receber seus pagamentos. "E este risco a dolarização não elimina."





