Londres, 14 (AE-AP) - A Grã-Bretanha e a Argentina firmaram hoje (14) um acordo que permite aos cidadãos argentinos visitar as ilhas Malvinas e construir um memorial para os soldados argentinos que morreram na Guerra das Malvinas.
Este foi o mais significativo avanço registrado entre os dois países no que diz respeito às ilhas desde a guerra, ocorrida em 1982, na qual morreram 725 argentinos e 272 britânicos.
O acordo, que também restabelece as conexões aéreas entre a Argentina e as Malvinas, marca "o início de uma relação de confiança", disse o ministro das Relações Exteriores argentino, Guido Di Tella, numa entrevista coletiva.
"Aqui não há vencedores ou perdedores. Somos todos vencedores", disse Di Tella.
O acordo, um sinal concreto do reaquecimento das relações entre a Grã-Bretanha e a Argentina, foi negociado com a participação dos membros do Conselho das Ilhas Malvinas.
Di Tella e o chanceler britânico, Robin Cook, também estabeleceram uma cooperação mútua na administração e preservação da fauna marinha ao redor das ilhas do Atlântico Sul.
Os vôos serão operados pela empresa chilena Lan Chile. Seus serviços foram suspensos em março, depois que as autoridades britânicas prenderam o ex-ditador Augusto Pinochet, acusado de violações aos direitos humanos.
O acordo prevê um vôo por mês de ida e volta, parando em Rio Gallegos, na Argentina, a partir de 16 de outubro.
O acordo substitui o de 1990, que permitia aos parentes próximos de argentinos mortos na guerra, visitar cemitérios na ilha.
O governo argentino se comprometeu a rever os nomes dos lugares que usa nas ilhas Malvinas. A revisão refere-se principalmente a nomes de lugares em espanhol decretados pelo governo argentino quando da invasão da ilha.
As recentes visitas do presidente Carlos Menem a Londres
em outubro, e do príncipe Charles à Argentina, em março, mostram a melhora nas relações entre os dois países.
O presidente argentino elogiou o acordo numa entrevista coletiva em Buenos Aires, dizendo que "os argentinos podem agora viajar para nossas ilhas".Para ele, o acordo firmado em Londres "é um grande passo em direção ao objetivo final" de conseguir a devolução do arquipélago à soberania argentina.
Menem acrescentou que espera poder viajar ainda este ano para as Malvinas. Sua filha, Zulema, estaria no primeiro vôo marcado para 16 de outubro, disse.
O presidente argentino afirmou que "por enquanto, gostando ou não, a soberania das ilhas será exercida pelo Reino Unido, o que obriga os argentinos a viajar com passaporte". Ele afirmou também que "tudo o que não está proibido no acordo, está permitido", ao ser interrogado sobre as possibilidades de empresários argentinos investirem na ilha.
A Grã-Bretanha e a Argentina não discutiram a complicada questão da soberania. As ilhas, chamadas pelos ingleses de Falklands, são uma colônia britânica desde 1833, quando uma frota de navios ingleses a invadiram e expulsaram o governador argentino Luis Vernet. Desde então os argentinos reivindicam as ilhas.
Na década de 60, a Grã-Bretanha parecia disposta a discutir a eventual devolução das Malvinas à Argentina, mas a descoberta de petróleo e a decidida oposição dos "kelpers", habitantes da ilha de origem britânica, frustaram essa possibilidade.
Em 1965, a Argentina conseguiu fazer com que a Assembléia Geral das Nações Unidas incluísse as Malvinas entre os territórios que deviam submeter-se a um processo de descolonização. A ONU também aceitou a tese argentina de que os "kelpers" não tinham direito à autodeterminação, pois eram uma população implantada nas ilhas por uma potência colonial.
Cook afirmou acreditar que a maioria dos habitantes das ilhas apóia o acordo. Entretanto, uma bandeira argentina foi queimada num protesto ocorrido na capital da ilha, Port Stanley, no último domingo.
"Eu acho inevitável algumas pessoas não ficarem felizes com o acordo, porque o acesso dos argentinos à ilha é uma questão muito difícil para os habitantes, principalmente as velhas gerações", disse Mike Summers, um membro do Conselho das Ilhas Malvinas que participou das negociações. Segundo ele, o restabelecimento da conexão aérea é um passo muito importante.

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