Argentinos querem medidas protecionistas
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 1999
Por Vladimir Goitia 
São Paulo, 19 (AE) - Pesquisa ampla entre os principais executivos argentinos publicada hoje pelo jornal "Clarín" mostra que a maioria (77%) quer que o governo adote medidas protecionistas contra o impacto de crises externas, entre elas a do Brasil. Pior, a maioria dos 222 executivos consultados (70%) acredita que o governo argentino não está "fazendo nada" para evitar as consequências negativas da crise brasileira sobre a economia do país.
Ou seja, nem mesmo as mais de sete concessões econômica-comerciais feitas há uma semana pelo governo brasileiro, entre elas a eliminação do Proex das exportações de bens de consumo àquele mercado, deixaram satisfeito o empresariado argentino.
"Não vamos a aceitar medidas pontuais contra a importação de produtos brasileiros", reagiu o secretário de Comércio Exterior, Mário Marconini, em entrevista à AGÒNCIA ESTADO, depois de ser informado sobre a pressão que o setor privado argentino ainda vem exercendo sobre o governo Menem.
De acordo com ele, o Brasil já fez as concessões necessárias para tentar atenuar os efeitos da crise cambial no comércio entre o Brasil e seus parceiros no Mercosul. "Temos consciência desses efeitos, mas também temos certeza de que eles serão circunstanciais, razão pela qual decidimos acompanhar o fluxo comercial brasileiro-argentino de perto", disse Marconini.
O secretário explicou que, até agora, foi provado que não houve e não deve haver a tão temida "invasão" de produtos brasileiros ao mercado argentino. "Em janeiro tivemos um défict de US$ 121 milhões, volume maior do que os US$ 93 milhões do mesmo mês do ano passado", disse Marconini.
O secretário, que participou diretamente das negociações com os argentinos na semana passada, quando os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem assinaram uma declaração de entendimentos, disse que não tem sentido a Argentina querer, por exemplo, aplicar direitos antidumping sobre produtos laminados em ferro e aço -- quinto item da pauta comercial entre os dois países -- se o déficit brasileiro com os argentinos cresceu nesse setor 75% apenas em janeiro.
Quotas - Embora a maioria dos empresários argentinos espere que o governo Menem adote medidas protecionistas para enfrentar a atual conjuntura econômica, derivada da crise cambial brasileira, apenas 23% exige a adoção de quotas de importação para produtos provenientes do Brasil.
A pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop) para o Suplemento Econômico do "Clarín" mostra também que 85% dos executivos estão convencidos de que 1999 será um ano regular ou ruim no aspecto econômico para o país. A maioria ainda (61%) está convencida de que será pior do que o ano passado.
De acordo com a pesquisa, os empresários argentinos estão hoje mais preocupados do que com as anteriores crises internacionais, como a do México (dezembro de 1994), ásia (junho de 1997) e Rússia (agosto de 1998). Para 59% desses executivos, a crise brasileira vai prejudicar diretamente os seus negócios. A metade dos consultados respondeu ainda que as suas importações serão mantidas.
Outros 25% disseram que vão aumentar as suas compras do Exterior e 22% que vão reduzi-las. Já boa parte dos pesquisados (54%), gostaria que o governo reduzisse a carga de impostos internos sobre a produção nacional.
Mercosul - O Brasil, responsável por 2/3 do Produto Interno Bruto o Mercosul, passou a ser visto tanto como "herói" como "vilão" no processo de integração regional. O economista Uziel Nogueira, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), diz que os países do bloco econômico não devem se deixar influenciar por "fúrias" conjunturais, mas, ao contrário, tentar aprofundar mais as reformas econômicas junto a políticas monetárias e fiscais prudentes. O Mercosul, afirma ele no artigo, "foi uma ferramenta-chave" para sair da crise do tequila.
Nogueira argumenta que o Brasil não pode ser visto apenas como fator que determina as relações econômicas do bloco. Isto é, provocando um "ciclo virtuoso" para a Argentina, Paraguai e Uruguai, caracterizado por um aumento das exportações ao mercado brasileiro, e, consequentemente, implicando mais emprego, mais ingressos, mais financiamentos externos e mais investimento externo direto (IED), quando a sua economia cresce.
Ou provocando um "ciclo vicioso" para os outros três sócios, com redução das exportações desse países, e implicando menos emprego, menor ingreso e meor IED, quando sua economia entra em processo recessivo.
De acordo com o economista do BID, a desvalorização do real não necessariamente poderia significar o fim do "ciclo virtuoso" e o potencial início do "ciclo vicioso". Para enfrentar essa crise, diz Nogueira, existem duas saídas. A primeira, que os quatro países membros do Mercosul continuem com o processo de reformas e de modernização econômica, mantendo políticas monetárias e fiscais prudentes, já que uma das maiores lições da crise financeira é que a globalização penaliza severamente os desequilíbrios macroeconômicos, principalmete os países com altos déficits fiscais.
Segundo, acrescenta o economista do BID, será necessário discutir a implementação, no Mercosul, de medidas de coordenação e convergência macroeconômica a médio prazo. Ele argumenta que as quatro economias são vistas como parte de um espaço em processo de integração e, portanto, pouco diferenciado pelos investidores e operadores financeiros internacioanis.
"Da mesma forma que o Mercosul foi a solução e não o problema para resolver a crise do tequila, em 1995, a atual crise também deve ser enfrentada pelos quatro membros mediante o fortalecimento do processo de integração subregional", conclui o economista do BID.


