Buenos Aires, 14 (AE) - A Argentina e a Grã-Bretanha assinaram um acordo que permitirá que cidadãos argentinos possam entrar nas ilhas Malvinas. Desde a derrota argentina na guerra das Malvinas, ocorrida em 1982, a entrada de cidadãos deste país estava proibida. O acordo também estabelece o restabelecimento de vôos comerciais entre os dois países, o desembarque de cargas e correio, além da coordenação do combate à pesca ilegal no Atlântico Sul.
O chanceler argentino Guido Di Tella e o ministro das Relações Exteriores britânico, Robin Cook, estipularam que será estudada a remoção conjunta de 26 mil minas explosivas, deixadas pelos argentinos nas ilhas. Também será construído um monumento em homenagem aos soldados argentinos mortos no conflito.
O acordo foi o resultado de longas negociações realizadas entre argentinos e britânicos desde o início da década, mas que foram apressadas nos últimos meses pelo isolamento que o arquipélago passou a ter, desde que o Chile suspendeu os vôos que abasteciam as ilhas. A decisão chilena foi tomada por causa da detenção em Londres do ex-ditador desse país, Augusto Pinochet. Por tabela, o boicote favoreceu a Argentina, mas teve sucesso absoluto quando o Brasil e o Uruguai, seus sócios no Mercosul, proibiram escalas de aviões britânicos com destino às ilhas. O alto custo do abastecimento desde a Grã-Bretanha, resultou em fortes pressões sobre os kelpers, como são denominados os habitantes das ilhas, que finalmente concordaram em ceder em suas restrições com os argentinos.
As ilhas foram território argentino até 1833, quando foram tomadas pela Grã-Bretanha. Durante o século XX, os kelpers vendiam seus produtos na Argentina, seus filhos estudavam na Universidade de Buenos Aires, e eram atendidos nos hospitais argentinos para emergências. Esse intercâmbio foi suspenso abruptamente em 1982, quando o ditador general Leopoldo Galtieri invadiu as ilhas. Suas tropas foram derrotadas três meses depois. As relações diplomáticas entre os dois países foram rompidas durante quase uma década.
O primeiro vôo será realizado no dia 16 de outubro, coincidentemente uma semana antes das eleições presidenciais. Uma das principais líderes da oposição, a deputada Graciela Fernández Miejide, celebrou o acordo, mas relativizou seu impacto na campanha eleitoral: "A questão das Malvinas é uma política de Estado, e não de partidos". O candidato do partido do governo à presidência, Eduardo Duhalde, propôs que a Argentina estabeleça um mercado comum com as Malvinas.
A embaixada brasileira em Buenos Aires disse à Agência Estado que o governo do Brasil cumprimentará em breve tanto a Grã-Bretanha como a Argentina pelo sucesso do acordo.
O presidente Menem anunciou o acordo, e saboreou cada palavra do discurso: ele havia prometido que até o ano 2000, a bandeira argentina estaria ondeando no gélido vento do arquipélago. Embora a bandeira não possa estar de fato, os argentinos poderão pisar novamente as ilhas, na qualidade de turistas. Durante a campanha eleitoral que o levou à presidência, Menem prometeu que recuperaria as Malvinas "a sangre y fuego". Depois, no governo
tentou outro caminho, que o chanceler Di Tella denominou de "política de sedução". Ao longo desta década de aproximação com os kelpers, Di Tella chegou a propor que os ilhéus aceitassem a cidadania argentina em troca de US$ 1 milhão.
Posteriormente, enviou vídeos do desenho animado Winnie The Pooh, alegando que "esta simpática figurinha enaltece os valores da amizade".
Os kelpers recusaram o dinheiro oferecido, e enviaram os vídeos para as crianças órfãs da Bósnia.
Nas negociações para discutir o acordo, foi excluída qualquer discussão sobre a soberania das ilhas, condição sine qua non colocada pelos britânicos e aceita a contragosto pelos argentinos para realizar as conversações. Apesar do "guarda-chuva" que impede tocar o tema, Menem referiu-se à ele
afirmando que "este é um grande passo para o objetivo final". Menem disse que as Malvinas "são para nós um território argentino. Entraremos agora com passaporte. Mais adiante, talvez possamos entrar sem ele. Gostemos ou não, ainda não temos a soberania. Não podemos viajar sem passaporte. Senão, voltaríamos à estaca zero".
Segundo ele, o acordo é uma das grandes conquistas de seu governo, que se encerra com esta "chave de ouro". Menem cometeu mais uma de suas tradicionais gafes, ao chamar o ministro britânico Robin Cook de "John Cook", que é uma griffe de roupa para jovens. Menem afirmou que pretende ir às Malvinas ainda este ano, embora não tenha certeza se isso poderá ser feito enquanto for presidente, já que seu mandato termina em dezembro. Por via das dúvidas, afirmou que enviará sua filha, Zulemita, em seu lugar. A filha do presidente desembarcaria no disputado arquipélago acompanhando o primeiro contingente de argentinos. Segundo Menem, este grupo "estará composto basicamente por parentes dos soldados mortos na guerra".
Não só o orgulho nacional, mas também o dinheiro esteve presente nos interesses argentinos. "Este acordo abre um caminho para que os empresários argentinos invistam nas Malvinas. A rede Howard Johnson já pensa abrir um hotel nas Malvinas".
Além disso, Menem propôs que as ilhas se transformem em um grande centro para o estudo da língua inglesa, não só para os argentinos, "mas para todos os estudantes do Mercosul". Segundo Menem, "para que ir estudar na Grã-Bretanha ou nos EUA? As Malvinas estão muito mais próximas!".

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