Argentinos já falam em fim do câmbio fixo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de maio de 1999
Por Ariel Palacios, especial para a AE 
Buenos Aires, 20 (AE) - Dogma desde 1991, a paridade entre o peso e o dólar é um consenso que começou a ser abalado na Argentina. Por enquanto, poucos se atrevem a pregar o fim do sistema, sob risco de serem tachados de "traidores da pátria". Mas nos últimos dias - mais a partir de quarta-feira - a tendência começou a mudar levemente e já começaram os rumores de que seria necessário adotar o câmbio flutuante.
Essas afirmações, que teriam sido heresias há poucos meses, não ingressam no terreno da ousadia: propõem a flutuação, mas para daqui a vários anos. Muitos especulam que no ano que vem, com o novo governo, começaria uma fase de transição e adequação à nova vida sem a paridade.
A preparação para a "nova era" sem a paridade estaria sendo organizada pelo seu próprio criador: o ex-ministro Domingo Cavallo. Segundo o jornal La Nación, o pai da conversibilidade seria o avalista da extinção desse tipo de câmbio fixo se for eleito o candidato do partido peronista à presidência do país, Eduardo Duhalde (o preferido nas pesquisas). Analistas consideram que cada vez são mais fortes as possibilidades de que Cavallo integre o gabinete de Duhalde. Além disso, no grupo de economistas de Duhalde, a desvalorização brasileira foi tomada como argumento de que é preciso desvalorizar para melhorar a competitividade.
Hoje, um dia depois da queda de 4,29% na bolsa, causada por rumores da demissão do ministro Roque Fernández, o clima era tranquilo. O pregão da bolsa começou com uma leve queda para fechar em alta de 1,19%. Na noite anterior, o ministro partiu para Chicago para uma conferência sobre o papel dos países no sistema financeiro internacional para evitar contágios, da qual participam o magnata George Soros e o economista Rudiger Dornbusch. Miguel Kiguel, chefe de assessores de Fernandez, declarou que "não existe razão para modificar o regime cambial". Segundo ele, a conversibilidade "é um exemplo mundial".
De forma geral, os rumores da quarta-feira foram atribuídos à resistência de diversos setores políticos e sociais aos cortes orçamentários do governo, e também às declarações - depois desmentidas - do ex-ministro Domingo Cavallo sobre o abandono da paridade.
Além disso, somaram-se os casos de default inadimplência por parte de várias empresas argentinas. Entre elas estão as Alpargatas, que deve US$ 650 milhões, o Banco Mayo (dívida de US$ 100 milhões), a Sociedad Comercial del Plata, que deve US$ 150 milhões e a Supercanal Holding (US$ 400 milhões).
O economista Roberto Lavagna, que está em Paris participando de um seminário sobre o Mercosul, disse por telefone à Agência Estado que a turbulência ocorrida "foi causada por rumores". Segundo ele, esse foi o tom dos economistas reunidos ali e também o de uma conversa que manteve com o ex-embaixador brasileiro na Argentina Marcos Azambuja, atualmente na capital francesa.
Lavagna, ex-ministro da Indústria e Comércio, afirmou que "não haverá saída da paridade este ano". Ele observou que essa também não será uma tarefa para o próximo governo. O ex-ministro considera que ao contrário do que ocorria no Brasil, na Argentina predomina o consenso em relação à paridade em todos os partidos políticos.
Na coalizão de oposição Aliança UCR-Frepaso verifica-se uma enfática defesa da paridade. O economista Pablo Gerchunoff, braço-direito de José Luis Machinea, cotado para futuro ministro da Economia, afirmou que a aliança não vai desvalorizar. "Não o faremos porque isso teria enormes custos."
Ao contrário de seus colegas, o ex-vice-ministro da Economia Eduardo Curia disse à AE que o país precisa sair da paridade. Segundo Curia, a transição do governo do presidente Carlos Menem para o próximo, "não será fácil". Para o economista, "o governo tem dificuldades para cumprir as metas com o Fundo Monetário Internacional (FMI)".
Curia sustenta que o país terá de acostumar-se à volatilidade ao longo do ano, e profetizou que "a margem de manobra do novo governo será quase zero". Os novos governantes, ponderou, "virão com muitas promessas de mudar a situação social e será um fiasco, porque as possibilidades são nulas".
Curia é um dos poucos inimigos da conversibilidade, à qual atribui "muitas desgraças, mas que assegura um simulacro de ordem". Segundo o ele, "Menem pensa obsessivamente no futuro, e fará o possível para chegar com a paridade de um peso por dólar até o fim do mandato".
Curia propõe uma saída ordenada da paridade, "com medidas como a flutuação cambial e uma política fiscal dura". Além disso, afirma que teriam de ser tomadas medidas especiais para os milhões de argentinos endividados em dólares.
A imprensa argentina tratou o tema com relativa indiferença na quarta-feira. O principal jornal do país, o Clarín, não deu manchete na primeira página para os rumores, e só nas páginas internas referiu-se à queda na bolsa como "dia de tensão para a Argentina".


