Argentinos admitem que se acham superiores a outros
PUBLICAÇÃO
domingo, 12 de dezembro de 1999
Por Ariel Palácios (assinatura obrigatória) 
Buenos Aires, 12 (AE) - O velho mito de que os argentinos se acham superiores à maioria dos outros povos tem algo de realidade: isso é o que indica uma pesquisa publicada pela "Viva", a revista dominical do jornal "Clarín", realizada pelo Centro de Opinião Pública (CEOP). Perguntando "com quais destas frases está de acordo?", a pesquisa revelou que 76,2% de nossos vizinhos do Mercosul fazem um auto-diagnóstico e concordam que "os argentinos se acham superiores aos outros".
Amplo raio-x da sociedade argentina, a pesquisa indicou que a população referiu-se com adjetivos negativos sobre o modo nativo de ser: "soberbo e convencido", foram alguns deles, admitido por 40,2% dos pesquisados. Outros 43,4% definem seus compatriotas com a qualificação de "picaretas". "Dar um jeito" e "se virar em cima da hora" é outra das características, indicada por 29,5% dos pesquisados.
Mas eles - embora considerem que o mundo inteiro piorou, além de seu próprio país - estão satisfeitos pelo fato de serem argentinos: 91% sustentam que não mudaria de nacionalidade se tivessem que nascer de novo e pudessem escolher. Talvez por que um dos motivos seja que 86,1% acham que "os argentinos são muito divertidos".
Outro motivo para querer ficar no país, pelo menos para os homens é que 68% deles considera que suas compatriotas "são as mais bonitas do mundo". Mas não são as jovens modelos adolescentes que enlouquecem os argentinos: como sex-simbol do país foi escolhida a apresentadora Graciela Alfano, de 47 anos.
Para as argentinas, o homem mais sexy é o também quartentão ator Osvaldo Laport. A pesquisa determinou que a imagem do argentino cabeludo, tradicional look que permaneceu desde os ano 70 até pouco tempo atrás, já acabou: elas preferem os homens com cabelo curto (91%), magro e delineado (60,3%), de pele branca (60,3%) e de cabelos pretos (50%). Mas 34,5% consideram que seria bom que o rapagão em questão ostentasse olhos verdes.
A moda de pintar o cabelo de loira, inaugurada por Evita Perón nos anos 40, também já não é o preferido pelos argentinos. Revalorizando as origens espanholas e italianas, eles as preferem morenas (37,5%), mas com cabelo comprido (62,5%). É muito importante que "la mina" tenha ostente "curvas muito acentuadas" (51,6%).
Como no resto do planeta, a família mudou, mas não acabou. Para 78,7% dos pesquisados, a felicidade é ter "uma bonita família". Apaixonados por seus cônjuges, 50,8% consideram que a felicidade é ter uma boa esposa ou esposo. O bem-estar da família é a coisa mais importante: 78,7% dos argentinos pensa assim. Só 3,3% consideram que o mais importante é uma sólida posição econômica.
A família argentina já admite amplamente que os casais morem juntos antes de casar-se oficialmente (58,2%). Entre os pesquisados, 67,2% consideram que a iniciação sexual precisa ser com uma namorado ou namorada estável. A virginidade já não é um tabu, para uma crescente maioria: somente 21,3% acreditam que as mulheres devam se casar virgens.
A infidelidade não seria aceita por 71,3% dos argentinos.
Entre os resultados que chamara a atenção dos pesquisadores é que apesar da sedução irresistível das imagens, após meio século de existência no país, a televisão ainda não conseguiu ser o meio de comunicação por excelência dos argentinos, que prefere o rádio, com 42,6% de adeptos. A televisão somente obteve 36,1%.
Para o ano que vem, calcula-se que o país terá quase 37 milhões de habitantes, dos quais 18,1 milhões seriam homem, e 18 8 milhões estaria composto por mulheres. A pesquisa, feita no meio da desapaixonada transição política do governo do presidente Carlos Menem para o de Fernando De la Rúa, indica que 71,3% dos argentinos não estão satisfeitos com nenhum político atualmente. No passado, estão as melhores lembranças: 68,9% consideram que antigamente os políticos eram mais honestos.
Entre os fatos que tiram a tranquilidade, o desemprego preocupa 85,1% dos argentinos. A corrupção é motivo de preocupação para 59,9%, e o aumento da insegurança, a 59,1%.
Embora estejam afastadas as traumáticas intervenções militares, que De la Rúa tenha se tornado no quarto presidente eleito desde 1983 (Menem foi eleito duas vezes), e que o país tenha experimentado 16 anos ininterruptos de democracia, constituindo-se em um recorde, os 74,6% dos argentinos lamenta e afirma que a Argentina não possui uma democracia madura. Entre as lembranças de fatos históricos que mais machucam os argentinos estão os golpes militares (32,8%) e a Guerra das Malvinas (21,3%). A lembrança mais querida é a volta à democracia em 1983 (32,8%).


