Argentina volta a negociar metas com o FMI
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de abril de 1999
Por Vladimir Goitia 
Buenos Aires, 05 (AE) - A economia argentina não vai crescer 4,8%, como estava previsto no Orçamento de 1999 e tampouco crescerá 3%, de acordo com a última meta de compromissos assinados com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao contrário, o Produto Interno Bruto (PIB) do país deve apresentar uma contração de 1,5% este ano. Isso é o que o ministro de Economia, Roque Fernández, deve informar esta semana à missão do FMI, que começou a chegar hoje a Buenos Aires.
O ministro argentino deve, mais uma vez, anunciar um novo ajuste fiscal, com mais cortes nos gastos públicos e, provavelmente, com aumento de impostos, principalmente nos combustíveis. O novo pacote que deve ser anunciado oficialmente esta semana prevê compensar a queda na arrecadação tributária, provocada, em parte, pela crise brasileira.
Mas a culpa não é toda do Brasil. O problema mesmo é interno, com queda nas vendas e uma forte retração na atividade industrial. Ao contrário dos feriados prolongados do ano passado
por exemplo, quando Buenos Aires costumava receber contingentes de turistas brasileiros, chilenos e uruguaios, desta vez o turismo no país parece estar entrando em uma fase negra. A desvalorização do real fez dobrar os custos do turista brasileiro em Buenos Aires e até uma corrida de táxi, antes quase de graça, se tornou um peso no orçamento de quem preferia a capital do tango ao Nordeste.
Os argentinos, por sua vez, ainda acreditam que a situação no Brasil vai se estabilizar aos poucos e, com isso, o fluxo de capitais para a região poderá voltar. Mas, mesmo assim, a Argentina terá de conviver com uma situação na qual o seu pricipal sócio do Mercosul, o Brasil, conta com preços 25% mais baratos do que antes.
Uma recente pesquisa realizada pela União Industrial Argentina (UIA), publicada pelo jornal "Clarín", mostra que apenas 3% dos empresários de 33 setores não foram afetados pela crise. Os setores de alimentos e de cimento estão entre eles. Os restantes 97%, segundo a pesquisa, apresentam resultados vermelhos.
O setor siderúrgico, por exemplo, acusou uma queda de 30% na atividade industrial nos primeiro bimestre do ano. Já as duas maiores indústrias do setor tabagista estão sendo afetadas pelo contrabando, que segundo o Clarin, estaria tirando pelo menos 10% do mercado.
Outra preocupação do setor privado argentino é a falta de crédito. Para 34% dos consultados, a falta de recursos ou as altas taxas de juros estão entre as suas principais preocupações. Outros 28% atiraram contra a alfândega argentina e contra a Secretaria (ministério) de Indústria e Comércio, acusados de não terem eficiência para controlar a entrada de produtos importados. Para piorar, o setor agrícola deve amargar perdas de pelo menos US$ 600 milhões por causa das inundações provocada pelas fortes chuvas dos últimos 15 dias.
Ajuste - Os cortes que o goveno argentino pretende fazer no novo acordo com o FMI somam US$ 1,5 bilhão, já anunciados na semana passada pelo ministro de Economia Roque Fernández. Com esse novo ajuste, o FMI poderia se comprometer a aceitar um défict fiscal de US$ 3,45 bilhões e não mais de US$ 2,95 bilhões. Ou seja, a Argentina conseguiria ampliar a possibilidade de endividamento público.
Em troca disso, no entanto, o FMI pode exigir a sanção imediata de uma lei de co-participação federal em relação às Províncias (Estados). Com isso, o governo Menem teria de restringir a distribuição de recursos aos governos das Províncias. O FMI pode exigir ainda a aprovação da chamada "conversiobilidade fiscal", projeto que prevê limitar o crescimento do gasto público em relação à variação da economia.


