Argentina vence Festival de Gramado
PUBLICAÇÃO
domingo, 16 de agosto de 1998
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 
DivulgaçãoCena de Pizza, Birra, Faso, melhor filme, direção e roteiro Como se quisessem punir - ou seria apenas alertar ? - este ausente 26º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, os deuses do Olimpo cinematográfico trataram de fazer das suas. Não foi somente a carrancuda carta meteorológica a complicar o andamento normal durante toda a semana: os filmes, em geral, não forneceram razões especiais para se enfrentar tanto mau tempo, de resto força maior absolutamente imprevisível e, óbvio, fora do alcance da vontade e poderes da organização. A noite de encerramento somente veio coroar uma jornada inexpressiva que ficou a dever safra sensivelmente melhor para 99. Além de alguns tropeços pouco recomendáveis durante a premiação - levada com altos e baixos pela dupla mestre-de-cerimônias Ciça Guimarães/Marcos Breda, logo no início os fados fizeram explodir sobre o palco a lente de um spot, exatamente no trajeto de personalidades políticas e artísticas chamadas para a entrega dos Kikitos. Por sorte ninguém se feriu - fotógrafos e cinegrafistas também estavam perigosamente próximos. O episódio, de certa forma, serviu como um puxão de orelhas premonitório, como se o destino prevenisse sobre os descaminhos do júri que se veria a seguir. E foi o que se viu.
Nove cabeças, algumas sentenças. Três dos cinco prêmios mais importantes - melhor filme, direção e roteiro - foram dados ao argentino Pizza, Birra, Faso (pizza, cerveja, cigarro, na gíria corrente dos garotos das ruas de Buenos Aires). Filme apenas mediano, rodado em 16 milímetros e ampliado para 35, dirigido pela dupla Bruno Stagnaro-Israel Caetano. Filme em estado bruto, ríspido, sobre a marginalidade pós-adolescente, com um destino trágico traçado desde a infância. Todos os três prêmios contestáveis sem muito esforço - bastava que alguns dos concorrentes fossem lembrados em cada categoria. Direção e roteiro, por exemplo, para o inventivo e muito bem humorado Tropicanita, cubano de Daniel Díaz Torres, recompensado apenas com os trofeus para melhor montagem e melhor música. Direção, para o amplo humanismo do português Paulo Rocha, premiado somente com o Kikito de melhor fotografia. Roteiro, para os três episódios chilenos de Historias de Fútbol, que saiu de Gramado com o Kikito de melhor atriz dividido entre suas duas intérpretes. De qualquer maneira, premiar um desses talvez fosse ousar demais. Quem acabou levando grande vantagem nesta distribuição giratória de Kikitos foi o uruguaio Otário. Até o diretor Diego Arzuaga, que nada tem de otário, pelo contrário, estava boquiaberto (mas com as mãos bem fechadas em torno de suas três estatuetas) com os prêmios destinados a melhor cenário, melhor figurino e melhor ator (Ricardo Couto). Seriam até discutíveis, não fosse por um detalhe: seu filme, de longe o mais barato - 150 mil dólares - foi rodado em vídeo, sistema Betacam simples e telecinado para celulóide, 35 milímetros. Seria até correto se fosse justo, vale dizer, ao vídeo o que é do vídeo, como fez Ingmar Bergman com seu ultimo filme-vídeo projetado em Cannes em seu sistema de origem, Beta digital, não concorrendo a nada. O salomônico Prêmio Especial do Júri dado a Amores, teatrinho à semelhança e imagem da televisão filmado em 16 mm e ampliado, agradou em cheio o diretor Domingos de Oliveira, que levou ainda o festivo prêmio do júri popular e o Prêmio da Crítica, em escolha lamentável dos 29 coleguinhas de ofício, entre brasileiros, argentinos e uruguaios. Um filme brasileiro merecia melhor sorte: A Reunião dos Demônios, de Cecílio Neto. Nem mesmo um Kikito de chocolate para o trio de atores-mirins.
O júri de curtas metragens também andou cometendo suas dissonâncias. Acertou no atacado, complicou no varejo. Um dos dois melhores filmes escolhidos, O Trabalho dos Homens, merecia dividir o prêmio com o catarinense Novembrada, de Eduardo Paredes, que acabou só levando o prêmio do júri popular e um estranho reconhecimento: o Kikito para melhor direção de arte, quando havia montagem e fotografia a serem reconhecidas.
A garotinha pernambucana Lucia Phebo, que faz a escritora Clarice Lispector quando menina em Recife, anos 20, em Clandestina Felicidade (também Prêmio da Crítica, menos comprometedor), acabou levando o prêmio de melhor atriz quase que por absoluta exclusão. Sua única concorrente mais direta, Claudia Liz, interpreta a loura espetacular que revoluciona uma borracharia em Um Dia e Logo Depois um Outro. Ou seja, não teve nenhum trabalho para ser ela mesma.
A destacar na área de curta metragem um novo segmento de prêmios, com duplo significado. O canal por assinatura Brasil, representado em Gramado pelo jornalista Wilson
Cunha, ofereceu R$ 2 mil a cada um dos curtas apontados por um júri formado por críticos brasileiros. Os escolhidos foram Clandestina Felicidade, O Trabalho dos Homens e Novembrada. Além do dinheiro em si, considerável em qualquer circunstância, há o aspecto simbólico desta aproximação histórica entre televisão e cinema. O casamento já foi há muito celebrado em outros países, e se mostrou altamente prolífico. A hora pode finalmente ser agora.


