Buenos Aires, 21 (AE) - Seguindo a corrente de políticos e empresários que nos últimos dias têm especulado sobre uma hipotética nova desvalorização do real, o chefe do gabinete de ministros da Argentina, Rodolfo Terragno, declarou que o Mercosul precisa estabelecer um "regime de compensações" para o caso que ocorram desvalorizações cambiais em um dos países-sócios. Terragno propôs que seja criada uma banda de modificações cambiais "toleráveis", ao redor de 10%. Acima desta faixa, de acordo com seu projeto, seriam ativados mecanismos de compensação de forma automática.
Terragno defendeu sua proposta tomando como exemplo o sistema de compensações que existiu na União Européia antes da criação do euro, "para que nenhum país obtivesse vantagens com a desvalorização de uma moeda". Ele sustentou que no ano passado, o governo do ex- presidente Carlos Menem pediu compensações pela desvalorização do real "muito tarde, quando ela já havia ocorrido. Foi como propor a prevenção de um incêndio com uma casa em chamas.
O ministro da Economia, José Luis Machinea, tentou acalmar a onda de especulações sobre a estabilidade do real, e disse que não acredita que ocorra uma desvalorização no Brasil. Ele definiu o país vizinho como "um bom sócio".
As especulações sobre o futuro do real voltaram a ocupar espaço na mídia argentina. O jornal de maior tiragem no país, o Clarín, deu duas páginas com a manchete "Para onde vai o real?". Segundo o jornal, entre economistas e empresários brasileiros há consenso de que o real desvalorizaria outra vez no segundo semestre. O Clarín considera que o novo reajuste dependerá do comportamento das importações e das exportações. Segundo o jornal, os empresários brasileiros estão otimistas pela reativação do mercado interno. No entanto, afirma que os exportadores brasileiros estariam preocupados com a atual relação entre o real e o dólar, e sugere que vão pressionar pela desvalorização.
Durante a campanha das eleições presidenciais, nenhum partido político criticou o Mercosul, até então considerado "política de Estado". No entanto, esse consenso supra-partidário acabou: o Partido Peronista, agora na oposição, descobriu o filão de usar o Brasil como bode expiatório dos problemas econômicos internos argentinos. O governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, aproveitou a onda "anti-Brasil", e ataca diariamente o país-sócio. Ruckauf busca a liderança do peronismo, e incentiva o "nacionalismo econômico", fórmula que costuma ser popular em momentos de recessão.
Para complicar a saúde do Mercosul, o governador da província mais poderosa do país está com uma popularidade invejável: uma pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública indica que Ruckauf foi um dos raros políticos de nome nacional que aumentaram sua imagem positiva desde as eleições de outubro do ano passado: subiu de 45,4% para 53,2%. O presidente Fernando De la Rúa não teve a mesma sorte: pouco mais de cem dias depois de sua posse, sua imagem caiu de 73% para 68,6%. A mesma pesquisa indicou que 62,7% dos argentinos possuem como principal preocupação no setor econômico "o traslado de empresas ao Brasil e outros países, o que reduz os postos de trabalho".

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