Lisboa, 25 (AE) - O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Adalberto Rodriguez Giavirini, disse que o melhor local para resolver os problemas do bloco econômico é no próprio Mercosul, referindo-se ao fato de o Brasil levar a disputa dos têxteis para a Organização Mundial de Comércio (OMC). "Quando se assina um acordo com determinado tipo de procedimento é necessário seguir esses procedimentos. É óbvio que o melhor é que não haja disputas, mas também seria fora da realidade pensar que poderia não haver disputas. Por isso insistimos tanto para que se criem mecanismos de resolução de controvérsias que permitam resolver as divergências sem que elas constituam temas bilaterais e afetem o funcionamento político e econômico da região".
Para o chanceler, a Argentina não se beneficiou da globalização: "Fizemos um grande esforço para chegar à globalização. Tivemos uma série de sacrifícios com a privatização, a abertura econômica, e isso não resultou no que disseram que ia resultar. Nosso desemprego é alto, nossa exclusão do comércio é muito forte, nossa taxa de crescimento diminuiu muito devido aos subsídios agrícolas".
Giavirini critica a nova argumentação que surgiu depois de Seattle, dizendo que agora utiliza-se a desculpa da sociedade civil para não abrir as economias: "Agora aparece uma nova argumentação, que é a da sociedade civil ante a multifuncionalidade. Isso parece muito importante, mas não se deve converter os conflitos de sociedade civil em conflitos que impeçam a globalização".
A forma como foi feita a globalização, disse, tem sido injusta para os países com maior produção agrícola: "O que estamos discutindo é se os países que têm vantagens comparativas no mais óbvio, que é o seu setor primário, vão ser impedidos de crescer pelos mais ricos, que podem subsidiar sua produção. Isso gera desvios no comércio, desemprego nos mais pobres, assim como uma clara agressão ao meio ambiente nos próprios países ricos, pela contaminação da água e da terra. Se a Argentina e outros países, como os centro-americanos, nem sequer pode entrar no mercado desses países mais ricos, qual é o destino internacional a que estão nos condenando? Não pedimos caridade dos países ricos, mas justiça."
Sobre a reunião em Vilamoura entre a União Européia e a América Latina, Giavirini ressaltou a posição dos europeus de relançar a discussão para que a próxima rodada da Organização Mundial do Comércio seja um sucesso. "Depois do fracasso de Seattle, era visto como inevitável que a próxima rodada poderia ter um nível mais baixo ou simplesmente falhar. Ontem, na intervenção de muitos delegados europeus, houve compromissos muito concretos para que na reunião de abril - na primeira semana em Buenos Aires e na segunda em Santiago - sejam enviados funcionários com capacidade de decisão e discutidos temas concretos, que sejam sentidos pelas populações. Isso mudou meu estado de espírito em relação à próxima rodada da OMC e me deu muita esperança".
Brasil - Em relação ao comércio com o Brasil, Gavirini discorda do termo Brasildependência, utilizado por muitos analistas argentinos: "Para nós o mercado brasileiro vai continuar sendo o principal mercado exportador. Ter uma relação bilateral de forma independente dos problemas dos outros nem é possível nem é justo. Argentina tinha em 98 33% do seu comércio exterior com o Brasil. No ano da crise, em 99, era 22%. O Brasil coloca na Argentina 16% do seu comércio internacional. É necessário ver a situaçaão de forma integral, porque mesmo com a crise continuamos a ter um superávit comercial em relação ao Brasil."
O ministro afirma que a falta de competitividade argentina deve-se em grande medida aos problemas internos do país. "A Argentina tem que olhar para dentro. Se há falta de competitividade é porque não foram feitas as reformas estruturais, como a reforma tributária, a reforma das leis do trabalho, a luta contra a economia informal e contra o contrabando."
Sobre o futuro do bloco econômico, Gavirini prevê a ampliação para todo o continente: "O Mercosul caminha para uma ampliação, não apenas para Chile e Bolívia, mas temos que desenvolvê-lo voltado para que a toda a América Latina esteja incluída neste tipo de acordo."

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