Buenos Aires, 04 (AE) - "Não são cotas. São salvaguardas". Desta forma, com eufemismos, o ministro da Economia da Argentina, Roque Fernández, explicou à imprensa que no caso de uma invasão de produtos brasileiros, a Argentina poderia solicitar salvaguardas dentro do marco da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Nos últimos dias tornaram-se frequentes os rumores em Buenos Aires sobre a possibilidade de estabelecimento de cotas ou restrições às importações provenientes do Brasil, que desde a desvalorização do real, tornaram-se mais competitivas. O ministro Fernández descarta que até o momento tenha ocorrido uma invasão de produtos brasileiros, mas admitiu que "em alguns setores pode ter acontecido um impacto com a modificação do tipo de câmbio".
No entanto, o ministro afirmou que ainda não está claro se esse efeito é permanente ou transitório. Por esse motivo, especula aplicar um sistema de cotas transitórias, que está previsto pelos acordos da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi). O argumento que a equipe econômica utiliza como respaldo é que as salvaguardas previstas pela resolução número 70 da Aladi formam parte de uma entidade jurídica superior às regras do Mercosul. Desta forma, o Brasil não teria como protestar pelas medidas que Fernández pudesse chegar a implementar.
"Não sairemos das regras do jogo vigentes nestas circunstâncias. Ou seja, não haverá medidas protecionistas ou unilaterais. Mas se for comprovado algum dano, poderia haver salvaguardas dentro do marco da OMC", disse Fernández.
O "dano" que transformou-se no sinônimo para um provável déficit comercial neste ano, já está sendo verificado. Segundo a Secretaria de Indústria e Comércio, na primeira semana de janeiro entraram diariamente US$ 12 milhões em produtos brasileiros. Já na última semana do mês, o volume de importações provenientes do Brasil subiu para US$ 21 milhões diários. O aumento foi encarado como uma "invasão" pelos industriais argentinos, horrorizados ao ver o crescimento das vendas de determinados produtos, como o chocolate brasileiro, que teve um aumento de 700% no mercado argentino. Além disso, houve um crescimento significativo no algodão e tecidos de algodão (350%), no aço (280%) e nos produtos farmacêuticos (200%).
O momento que o governo argentino aproveitaria para a aplicação das salvaguardas poderia ser na segunda-feira, quando a Comissão Nacional de Comércio Exterior dará seu parecer sobre a demanda feita pela empresa Siderúrgica Siderar contra as vendas para a Argentina da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A Siderar, integrante do poderoso Grupo Techint, solicitou um aumento nos impostos alfandegários na importação de chapas de aço, já que acusa empresas brasileiras e ucranianas de realizarem dumping.

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