Ney de SouzaImportaçãoPequenas e médias empresas não suportaram concorrência de calçados importados; Brasil importou 10 milhões de pares e a Argentina, 5 milhõesA concorrência desleal dos países asiáticos e algumas medidas econômicas do governo argentino provocaram, nos últimos 5 anos, o fechamento de mais de mil fábricas de calçados na argentina e a demissão de 35% dos trabalhadores do setor. Segundo o presidente da Câmara Argentina de Calçados, Carlos Bueno, os importados da China, Indosésia e Malásia entram no país com preços muitos mais baixos do que os praticados pela indústria argentina.
A produção de calçados no País baixou de 11.128 para 9.252 milhões de pares entre os anos de 91 e 95, segundo o Indec - Instituto de Estatísticas da Argentina. Já as importações cresceram mais de 40 vezes entre 1989 e 1993 devido a abertura econômica, com a redução do imposto.
Só no ano passado, ingressaram no Paraguai cerca de 20 milhões de pares. Já o Brasil importou aproximadamente 10 milhões de pares e a Argentina, 5 milhões. Para o presidente da Câmara de Calçados da Argentina, isto causou a quebra das indústrias que não conseguiram competir com os preços praticados pelo mercado asiático.
O grande problema é que 80% das indústrias são compostas de pequenas e médias empresas com menos de 20 operários. Por isso, não conseguem produzir em grande escala e diminuir os custos. Outro problema está na cobrança de altas taxas de juros, que variam entre 15% e 18%. Para Carlos Bueno, estes juros tornam impraticável a atividade num país com inflação próxima a zero.
Ney de SouzaQualidade x preçoFalência levou à demissão de 35% dos operários do setor
FronteiraEm Puerto Iguazú, na fronteira com o Brasil, a crise do setor de calçados se refletiu na diminuição das vendas. Maria do Carmo, proprietária da loja de calçados mais antiga de Puerto Iguazú, diz que há quatro anos teve que mudar de ramo.
Ela vendia calçados de alta qualidade e devido aos preços altos não tem mais condições de manter a seção de calçados. Hoje sua loja vende cosméticos e roupas. O estoque que ainda possui está sendo liquidado a preços muito abaixo dos custos. Um sapato de salto, feito em camurça, está sendo vendido por 60 pesos. Se fosse comprá-lo de uma fábrica hoje, não custaria menos que 100 pesos.
Maria do Carmo considera que a queda das vendas se deu principalmente por causa da recessão que assolou tanto a Argentina quanto o Brasil. ‘‘Ninguém tem condições de comprar produtos mais sofisticados, a população está sem dinheiro e a qualidade dos produtos ficou em segundo plano. Sempre o que é mais barato, mesmo que não seja o melhor, vende mais.’’
Para Carlos Osinki, dono de uma loja especializada em calçados de fabricação argentina, diz que embora o sapato que ele venda tenha uma qualidade superior aos calçados chineses, o preço sempre pesa mais. ‘‘É muito mais fácil para argentinos e brasileiros atravessarem a Ponte da Amizade e irem comprar em Ciudad del Este, onde os preços são muito mais baixos.’’
Sobre o fechamento das fábricas argentinas, Carlos é taxativo ao afirmar que as pequenas indústrias não têm condições de competir no mercado. A realidade é que somente as grandes empresas conseguem suportar as altas taxas de juros e a concorrência dos importados.

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