Argentina infla crise artificial sobre intervenção Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 24 (AE) - Como se os problemas reais da Colômbia já não fossem suficientes, o governo do presidente Andrés Pastrana enfrentou na semana passada as consequências de uma crise artificial criada por vizinhos supostamente empenhados a prestar-lhe uma ajuda que ele não pediu.
A conhecida disposição do atual governo da Argentina de mostrar-se útil ao que supõe serem os objetivos dos Estados Unidos na região, procurando antecipar as intenções de Washington, levou porta-vozes da administração Menem a alimentar durante toda a semana na imprensa de Buenos Aires a ficção de uma intervenção militar latino-americana na Colômbia.
Tal força desembarcaria no país com respaldo de Washington e a missão de fazer não se sabe bem o que para resolver o conflito entre a narcoguerrilha e o governo de Bogotá. Para tornar a iniciativa especialmente esquisita, dias antes o governo argentino tomara a inusitada decisão de dar férias coletivas a seu Exército, alegando falta de meios para mantê-lo em operação.
Esta não foi a única falsa crise diplomática da semana na América do Sul. Na segunda-feira, o novo enviado especial da Casa Branca à América Latina, Buddy McKay, um político da Flórida com pouca experiência nos assuntos da região, afirmou durante uma entrevista coletiva em La Paz que os Estados Unidos estariam dipostos a mediar uma negociação entre a Bolívia e o Chile para que os bolivianos conseguissem sua ansiada saída para o mar.
Surpreendido pelo súbito interesse norte-americano em ajudar a Bolívia numa disputa territorial que, segundo o Chile, não existe porque foi há muito resolvida por um tratado negociado entre os dois países, o governo de Santiago pediu explicações a Washington.
Horas mais tarde, o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin, corrigiu McKay, o qual depois telefonou para o embaixador chileno nos EUA, Genaro Arriagada, para pedir desculpas.
A essa altura, a iniciativa da Argentina para salvar a Colômbia estava no auge. Em Washington, uma "fonte diplomática" citada pela correspondente do jornal Clarín em Washington, Ana Barón, declarou que os Estados Unidos estariam dispostos a apoiar uma intervenção de Forças Armadas latino-americanas na Colômbia, se a situação tornar-se incontrolável para Pastrana. Segundo a fonte, o general Charles Wilheim, chefe do Comando Sul das Forças Armadas norte-americanas, aprovaria esse tipo de intervenção e já haveria até sondagens informais para ver se há apoio na América Latina.
Segundo a "fonte diplomática", "Wilheim está muito entusiasmado com essa idéia". O informante acrescentou que, no caso de o projeto hipotético ir adiante, "os Estados Unidos aportariam apenas apoio técnico e de inteligência". O vice-chanceler Andrés Cisneros encarregou-se de dar curso à fantasia dizendo, na quinta-feira, que a Argentina não tomaria nenhuma decisão sobre o que então já se transformara num projeto de intervenção armada na Colômbia, com a bênção e o apoio dos EUA, "sem ouvir previamente a opinião dos nossos vizinhos na região, em particular a Colômbia e o Brasil".
No mesmo dia, o presidente Fernando Henrique Cardoso, que visitava o Peru, foi perguntado sobre a posição do Brasil. "Como todos os latino-americanos, estamos preocupados com o que está acontecendo (na Colômbia)", disse ele. "Mas rechaçamos qualquer tipo de intervenção estrangeira na solução dos assuntos internos de uma nação." A declaração, que passou praticamente despercebida no Brasil, por óbvia, virou manchete do Clarín no dia seguinte. Note-se que, ao longo de todo o episódio, os Estados Unidos não se pronunciaram sobre a iniciativa a eles atribuída.
De acordo com fontes diplomáticas brasileiras ouvidas pela Agência Estado em Brasília e em Washington, em nenhum momento os Estados Unidos fizeram sondagem sobre a hipótese de uma intervenção militar na Colômbia. "Não apenas essa é uma má idéia, como a Colômbia não pediu esse tipo de ajuda", disse um diplomata. "Os EUA têm manifestado uma preocupação maior com as situações não apenas na Colômbia, mas também no Peru e no Equador", continuou o funcionário. "Em relação à Colômbia, houve uma evolução conceitual na posição dos Estados Unidos depois a posse do presidente Pastrana e Washington está mais disposta a apoiar não apenas a polícia no combate ao narcotráfico, como fez até agora, mas também o Exército colombiano que luta contra a guerrilha, que os norte-americanos já não distinguem do narcotráfico."
Um outra fonte diplomática brasileira disse que a única informação que o governo recebeu de Washington sobre o suposto plano da intervenção militar latino-americana que estaria apoiando na Colômbia foi no sentido de desmentir que tivesse tal projeto.
Após a declaração de Fernando Henrique em Lima, essa mesma informação finalmente também chegou a Buenos Aires. Na sexta-feira, o governo argentino tratou de encerrar a ficção que estimulara até a véspera.
O ministro da Defesa, Jorge Domínguez, garantiu que seu país "não recebeu nenhum tipo de proposta" sobre uma eventual intervenção na Colômbia e "não existe nenhuma possibilidade" de a Argentina participar de semelhante ação. "A Argentina não está de acordo com uma intervenção militar em nenhum país da região."





