Buenos Aires, 28 (AE) - Os governos de Brasil e Argentina concordaram nesta segunda-feira (28) em criar um amplo acordo sanitário para alimentos de origem animal e vegetal. O anúncio foi feito pelo ministro da agricultura do Brasil, Marcus Pratini de Moraes e o Secretário da Agricultura da Argentina, Antonio Berhongaray.
Será criada uma comissão que irá preparando o acordo, mas não foi estabelecido um prazo. "Entre amigos, não há prazos", disseram ambos ministros.
"O acordo sanitário geral nos poupará de discutir produto por produto, doença por doença a cada vez", declararam os ministros
que também sustentaram que todas as medidas sanitárias serão previamente discutidas e analisadas antes de serem aplicadas.
"Assim evitaremos surpresas", disse Pratini de Moraes, que afirmou que "não há interesse algum na continuação das brigas comerciais entre os dois países. Queremos unir esforços para combater o protecionismo agrícola dos EUA e da União Européia".
Os subsídios do setor nos países desenvolvidos será analisado de maneira "informal" na reunião que será realizada amanhã pela manhã entre os ministros da agricultura do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile em Buenos Aires. O motivo original do encontro, no entanto, é a reunião do Comitê de Sanidade Vegetal do Cone Sul (COSAV).
Além disso, nesta manhã, técnicos dos órgãos sanitários dos dois países se reunirão para analisar os obstáculos sanitários colocados pela Argentina contra os frangos brasileiros. A equipe brasileira veio armada com ampla documentação para rechaçar as acusações argentinas de que existe no Brasil a doença de Newcastle, que causa complicações respiratórias fatais para as aves. Existe boa expectativa que a Argentina aceite os argumentos brasileiros, e cancele as restrições que entrariam em vigor no dia 1º de março.
Pratini de Moraes e Berhongaray também anunciaram que os dois países vão trabalhar em conjunto para "organizar os fluxos de comércio para não quebrar os preços". Os dois ministros explicaram que o plano é em colaboração com o setor privado, e pretende coordenar a comercialização de colheitas nos dois países de forma que se alternem e evitem concorrências inúteis.
Pratini de Moraes e Berhongaray declararam que os dois países concordaram em estabelecer uma coordenação de políticas agropecuárias comuns. "O Mercosul é o principal exportador bruto de alimentos do mundo", disseram, "Nosso objetivo é fortalecer o Mercosul", disse Pratini de Moraes, que argumentou que "os países desenvolvidos querem ver o fracasso da aliança comercial Brasil-Argentina".
Ele e Berhongaray afirmaram que "para enfrentar os países ricos", entre outras medidas, decidiram criar a Marca Mercosul. A idéia é vender determinados produtos agrícolas com esforços conjuntos de marketing e de distribuição. O plano começaria com as frutas brasileiras e argentinas, e depois passar para as carnes.
No fim de semana, Berhongaray recebeu Pratini de Moraes em uma chácara para estabelecer um primeiro contato informal. Com um típico churrasco argentino, a degustação de carne bovina deslocou sutilmente o affaire dos frangos, que foi adiado para a reunião oficial. Fontes dos dois países concordaram que no novo governo argentino, que tomou posse em dezembro, existe maior disposição de resolver os conflitos comerciais do que com o governo anterior, do ex-presidente Carlos Menem, durante o qual chegou-se a especular no fim do Mercosul.
A boa disposição não é gratuita. No governo do presidente Fernando De la Rúa existe temor que o Brasil aplique retaliações sanitárias por atitudes protecionistas argentinas. Neste país, Pratini de Moraes tem fama de duro negociador, e de não vacilar em reagir rapidamente à eventuais ameaças para os produtos brasileiros. Entre os potenciais alvos de retaliações que os argentinos mais temem estão as vendas de lácteos, que no Brasil encontraram um receptivo mercado.
Outro produto é o mel. A Argentina é o maior produtor mundial, e não quer perder o enorme mercado consumidor brasileiro do produto.
No entanto, na Secretaria de Indústria e Comércio, estaria sendo preparada outra estratégia. Fontes dali, informaram à Agência Estado que o "modus operandi" seria continuar causando "confusão comercial". Ou seja, informar boa vontade nas negociações para depois lançar medidas protecionistas inesperadas. A intenção seria pressionar para conseguir acordos de auto-limitação de produtos, seguindo os exemplos já ocorridos nos setores de calçados, siderurgia e papel.

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