Argelinos votam em eleição marcada pelo caos e confusão
Argel, 15 (AE-AP) - Os argelinos votaram hoje (15) numa eleição presidencial marcada pela confusão e o caos provocados pela renúncia no último minuto de seis dos sete candidatos. O que permaneceu na disputa é o mais controvertido - o homem apoiado pelos poderosos militares.
Apesar da eleição ter sido apresentada como uma chance de se conseguir uma real democracia na Argélia, ela agora parece que pode aprofundar as fraturas de uma sangrenta insurgência islâmica de sete anos.
Os seis candidatos renunciaram na véspera da eleição, denunciando o que chamaram de fraude generalizada nas primeiras votações dos soldados.
Abdelaziz Bouteflika, o candidato remanescente que pode tornar-se o sexto presidente e primeiro líder civil da Argélia desde 1965, disse que não assumirá o cargo sem que tenha havido um grande comparecimento às urnas e ele tenha recebido uma grande maioria.
O comparecimento total às urnas foi de 65,3% dos eleitores, informou o Ministério do Interior, comparado aos 75% da última corrida presidencial em 1995.
"Para que esta votação tenha sentido, os eleitores precisam participar", afirmou o ex-chanceler Abdelaziz Bouteflika ao votar. "Sem isso, voltarei para casa com a sensação de missão cumprida."
O resultado deve ser divulgado amanhã. Apesar da retirada dos candidatos oposicionistas, seus nomes foram mantidos nas cédulas eleitorais e puderam receber votos. O dia transcorreu em calma, mas muitos eleitores entrevistados em Argel ainda estavam surpresos com os acontecimentos que cercaram a eleição.
"Esses que se retiraram nunca mais deveria ter o direito de ser presidente no futuro", disse Ahmed Ifrene, de 73 anos. "Gastamos 400 milhões de dinares (cerca de US$ 7 milhões) para eles desistirem", afirmou ele. "Eles estão errados"
Já um médico de 27 anos que revelou apenas seu primeiro nome, Smail, apoiou a decisão oposicionista - e não votou. "Precisamos cortar tudo que é inspirado pelo velho sistema." Seu irmão Nasser, de 30 anos, também não votou. "Talvez agora eles (o governo) entendam que queremos mudanças."
A retirada coletiva foi um protesto contra uma alegada fraude abrangendo 500 mil votos de militares, policiais e eleitores de regiões mais longínquas, como os nômades do sul do Saara, para quem o processo de votação começou alguns dias atrás.
Para reforçar sua posição, os oposicionistas convocaram para amanhã uma "manifestação nacional de protesto" em Argel, da qual devem participar quatro dos ex-candidatos: Ahmed Taleb Ibrahim (apoiado pela Frente Islâmica de Salvação, a FIS), Mouloud Hamrouche, Youcef Khatib e Abdallah Djaballah.
O abandono foi um golpe para as esperanças de que a votação pudesse curar as feridas do país, mergulhado numa guerra civil entre fundamentalistas muçulmanos e forças do governo, a qual já deixou 75 mil mortos.
A revolta fundamentalista começou em 1992, depois que foram anuladas eleições gerais cujo primeiro turno fora vencido pela integrista FIS. Essa organização pediu que os eleitores boicotassem o pleito de hoje.





