Argelino fez a carta-bomba da OAB
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quarta-feira, 18 de dezembro de 1996
Edson Luiz<br> Agência Estado, de Brasília 
A carta-bomba que foi entregue na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio em agosto de 1980, e que matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, causando outros grandes estragos, foi fabricada por um argelino que trabalhava para grupos de direita no Brasil. Mais de 20 pessoas participaram do atentado, a maioria delas militares que estão na ativa até hoje.
As revelações e confirmações foram feitas ontem, e constam do relatório encomendado pela direção da OAB a uma empresa de investigação que concluiu também que Ronald James Wathers, apontado na ocasião como o autor do atentado e posteriormente absolvido pela Justiça Militar, foi o mensageiro da carta que matou a secretária.
Segundo o presidente da OAB nacional, Ernando Uchôa Lima, a entidade vai pedir que a Procuradoria Geral da República determine a reabertura do processo, já que existem novos fatos. Ontem, Uchôa Lima recebeu o relatório de 70 páginas e 30 documentos anexos produzido pelo escritório Bureau de Investigações Criminais, do Rio de Janeiro.
Contratada pela OAB por R$ 80 mil, a empresa checou, durante oito meses, novos indícios do crime, baseando-se em documentos sigilosos e ouvindo pessoas que tiveram qualquer tipo de ligação com o fato.
O trabalho dos detetives particulares começou na verificação de falhas da Polícia Federal. A PF avocou quatro inquéritos da Polícia Civil do Rio, que apurava quatro atentados. O atentado à sede da OAB, outro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o envio de uma bomba à Sunab (que não chegou a explodir) e o incêndio à sede do jornal Tribuna Operária.
Por determinação do então ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, todos os inquéritos foram reduzidos a um único. Nós nos baseamos no que deixou de ser apurado, diz o chefe das investigações, Tarcísio Pinheiro. A PF deixou de investigar propositalmente, afirma o detetive Roque Santos, diretor da Bureau.
Intermediário Pelas conclusões do escritório, Ronald James Wathers, que foi apontado como o autor do atentado, na verdade funcionou como o portador da carta-bomba. Ele foi preso e absolvido em 1981 pelo Superior Tribunal Militar por falta de provas. Foi ele quem entregou a carta-bomba para dona Lyda, revela Uchôa Lima. A bomba, confeccionada por um argelino que morava no Brasil, era sensível e não poderia ser enviada pelo correio.
O relatório recebido por Uchôa confirma também a suspeita de que o atentado teve a participação de militares: alguns deles ainda hoje estão em atividade. Segundo os detetives, as 20 pessoas apontadas no relatório não são consideradas apenas suspeitas, mas culpadas pelo atentado.
Os nomes, segundo o presidente da OAB, só deverão ser divulgados no decorrer da semana, quando Uchôa deverá ter lido todos os detalhes do atentado que, além de ter matado instantaneamente a secretária, decepou a mão e cegou uma pessoa que estava no local na hora da explosão, ocorrida por volta de 13h35 do dia 27 de agosto de 1980.
Durante as investigações, os próprios detetives foram ameaçados por algumas pessoas a quem procuraram. Algumas delas nos disseram que era para abandonarmos o caso, para não nos arrependermos depois, afirma Roque Santos. A investigação exigiu o trabalho de 12 detetives, incluindo quatro mulheres. Na verdade, não tivemos grandes surpresas durante as investigações, acrescenta Santos.


