Paris, 15 (AE) - Não é fácil substituir Kosovo na primeira página dos jornais. Mas, na manhã de hoje, a Argélia conseguiu. Todos os jornais franceses abriram suas edições com a eleição presidencial argelina - eleição que se desenrolou no reinado de Kafka, de Borges ou do Ubu rei.
Havia sete candidatos à presidência. O poder militar do general Liamine Zeroual, que organizou esse pleito, contava com ele: enfim, a Argélia saía do reino do Exército e da ditadura. Ela se dava um presidente ao mesmo tempo civil, legítimo e democraticamente eleito. Magnífico!
Ora, quarta-feira isso se espatifou! Seis dos sete candidatos saíram da disputa. Por quê? Para protestar contra as fraudes pré- eleitorais que tinham como objetivo garantir a vitória do sétimo candidato, Abdelaziz Bouteflika, o homem dos militares e do poder atual.
Terremoto político! Mas Zeroual recusa-se a anular a eleição. E Bouteflika decidiu participar, mesmo sozinho. Então, desde cedo, a Argélia votou. Votou como quem vai a um enterro: em frente dos locais de votação, nenhuma fila de espera. Nada de gritos. Nada de manifestações. Nada de protestos. Um imenso silêncio. Risos irônicos e, ao mesmo tempo, desesperados. Como se toda a Argélia, em vez de comemorar o renascimento da democracia, comemorasse a "segunda morte" dessa democracia.
E agora? Bouteflika vai ser eleito. Mas que autoridade ele terá? Candidato único, desonrado aos olhos dos argelinos por causa das manobras fraudulentas incontestáveis que provocaram a revolta de seus rivais, será obrigado a governar com os meios de seus predecessores: o Exército, a força, a arbitrariedade e tudo que acompanha as ditaduras.
Bouteflika sabe disso: é um homem eminente, muito inteligente, que foi, outrora, um ministro talentoso em governos autoritários e manifesta verdadeiros dons de homem de Estado. Hoje, ele avalia então o desconforto de sua posição. Por isso, declarou que somente aceitaria a presidência se reunisse um número aceitável de eleitores. (Veremos...)
No entanto, há quem veja nessa figura estranha do regime militar uma chance para a Argélia. O raciocínio é o seguinte: até aqui, o partido dominante (o dos militares) sempre triunfou à medida que seus oponentes não chegavam a um acordo entre eles. Ora, agora, pela primeira vez, seis candidatos que representam as oposições adotaram uma mesma decisão: socialistas, pessoas de direita, leigos, religiosos, etc. Os seis marcharam no mesmo passo. É sinal de que o poder dos militares (ou o de seu protegido Bouteflika) finalmente vai encontrar diante de si uma coalizão "nacional" disposta a fazê- lo recuar.
O momento é, no entanto, perigoso, pois a Argélia não se limita ao cenário da política. Ou, antes de mais nada, o cenário da política desenvolve-se num ambiente ensanguentado: os massacres a que se dedicou, há alguns anos, a pregação delirante dos fundamentalistas. É verdade que, nos últimos meses, o Exército tem conseguido frear o ritmo dos massacres, mas os grupos fundamentalistas subsistem.
Uma volta à paz civil, à expressão das diferenças, ajudaria a erradicar os loucos que matam em nome de Deus. Mas essa democracia com a qual toda a Argélia sonha tanto morreu antes de eclodir. Seria esse sonho um pesadelo?

mockup