São Paulo, 24 (AE) - o arcebispo de São Paulo, d. Cláudio Hummes, pediu pessoalmente ao presidente da Escola de Samba águia de Ouro para que não leve a imagem da Virgem Maria ao desfile no sambódromo. O pedido foi feito hoje pela manhã, durante um encontro na residência do arcebispo. A alegoria, criada pelos carnavalescos Paulo Fuhro e Victor Santos, é uma réplica da Pietá, de Michelângelo. Em vez do Cristo, a Virgem segura um índio nos braços.
O presidente da escola, Sidnei Carriuolo, disse a d. Cláudio que é católico e não tem intenção de desrespeitar nenhum símbolo de sua religião. O arcebispo então apelou para a sua fé. Ele chegou a dizer que Nossa Senhora daria maior proteção à águia de Ouro se a imagem fosse preservada. Ao final, Carriuolo prometeu a d. Claudio que voltaria a conversar com outros diretores antes de tomar uma decisão.
À tarde, porém, o presidente da águia de Ouro informou que, por enquanto, o carnaval da escola não vai ser modificado. "Estamos do mesmo jeito", disse. Ele negou que tivesse conversado com o arcebispo pela manhã. Carriuolo ressaltou que ainda espera um contato da igreja para decidir se a escola sai ou não com a imagem. "O convite já foi feito", disse.
Justiça - Quem organizou o encontro foi o presidente do Anhembi, Américo Calandriello Júnior, que mantém boas relações com o arcebispo e com o presidente da águia de Ouro. Hoje pela manhã, Carriuolo procurou o presidente do Anhembi, preocupado com a possibilidade de a Arquidiocese recorrer à Justiça e prejudicar o desfile da escola no Grupo Especial. Calandriello entrou em contato com o arcebispo e acertou o encontro.
Não é a primeira vez que igreja e escolas de samba entram em conflito às vésperas do carnaval. Em 1989, a Cúria Metropolitana do Rio obteve uma liminar impedindo a Beija-Flor de Nilópolis de exibir a imagem de um Cristo mendigo. Para que a estátua pudesse aparecer na avenida, o carnavalesco Joãosinho Trinta teve de cobri-la com um saco plástico preto. Sobre a imagem, colou um cartaz com os dizeres "Mesmo proibido, olhai por nós".
Pesquisa - Os carnavalescos Paulo Fuhro e Victor Santos trabalharam juntos, em 1997, na Beija-Flor. Fuhro estudou filosofia na Alemanha e defendeu uma dissertação na qual analisava o trabalho de Joãosinho Trinta. Hoje ele disse desconhecer o encontro de d. Cláudio com o presidente da escola. "Não estou sabendo de nada", garantiu.

mockup