Nova York, 21 (AE) - Todos os dias, no bairro do Brooklyn, os alto-falantes da mesquita Al Aqusa despertam os moradores da Avenida Atlantic com orações para Alá - elas são momentos de paz na difícil relação entre a comunidade de imigrantes árabes e os norte-americanos.
Nos quarteirões ao redor do templo, centro do pequeno mundo árabe nos Estados Unidos, um punhado de imigrantes ainda vive como se estivesse nas Arábias, pagando um preço alto: sua religião e nacionalismo, no contexto da política internacional, transformam-nos no grupo mais discriminado pela sociedade americana na atualidade.
"Aqui podemos ter liberdade religiosa e de movimentos, mas somos tratados como criminosos", queixa-se o egípcio Ahmed Badwa, taxista em Bay Ridge que vive há 12 anos nos EUA.
É fácil entender as razões do preconceito contra árabes e islâmicos: os EUA apóiam seu arquiinimigo Israel, estão em guerra com o Iraque, com as relações cortadas com o Irã, ameaçam bombardear o Afeganistão e botam olho grande em todo poço de petróleo do Oriente Médio.
"Às vezes, sinto que as pessoas olham para mim no metrô como se eu fosse um bandido", descreve o palestino Mustafah Mazri, zelador de um edifício em Manhattan.
"Para o americano médio, não importa nossa origem nem nossa conduta, somos tratados com a mesma desconfiança", afirma Ahmed Caab, sírio, comerciante em Corona. "Estou há 20 anos no país e é sempre a mesma coisa quando descobrem de onde sou."
Calcula-se em 300 mil os imigrantes árabes vivendo em Nova York. A comunidade cresceu muito nos últimos dez anos. A medida certa pode estar no número de mesquitas: eram quatro em 1980 e, hoje, são quase 200.
Por mais que os americanos sejam liberais, o medo de um novo atentado à bomba como o do World Trade Center, em 1995, atribuído ao terrorismo árabe, fez varrer as garantias individuais dos imigrantes.
Há 15 árabes presos com base em acusações secretas, uma aberração no sistema jurídico local. O FBI e a polícia nova-iorquina monitoram mesquitas e associações de imigrantes árabes como se fossem campos de treinamento de terroristas.
Na mesquita de Astoria, onde os fiéis são tantos que rezam na calçada, o tema da semana é a caçada da Agência Central de Informação (CIA) ao terrorista saudita Osama Bin Laden.
"Não concordo com Laden, mas não aceito que os americanos o persigam pelo mundo árabe como se nossos países fossem seu quintal", disse um imã, o religioso que conduz as orações.
Apesar da liberdade de expressão nos Estados Unidos, na hora das críticas a maioria prefere o anonimato: "Nossas mesquitas têm seguranças para evitar a infiltração de espiões da polícia federal (FBI), porque os americanos nos estão perseguindo, fichando todo árabe como terrorista", reclama um aiatolá de Queens.
O homem reclamou também do último filme de Denzel Washington e Bruce Willis, Estado de Sítio, no qual o bairro do Brooklyn é cercado pelo Exército e os imigrantes árabes são postos em campos de concentração. "Com lições assim, a intolerância só vai aumentando", disse o aiatolá.
Na sexta-feira, dia santo dos muçulmanos, o templo Al Aqusa fica lotado de homens vestidos de branco. Outra indumentária tradicional é o kafieh, como o consagrado por Yassar Arafat. Todos rezam a juma, salmos em honra de Alá.
Os fiéis ajoelham-se de frente para o Aeroporto John Kennedy - o gesto é simbólico, eles estão voltados, na verdade, mais ou menos na direção da cidade santa de Meca, na Arábia Saudita, como manda a tradição.
Alguns frequentadores, personagens típicos desse enclave no bairro do Brooklyn: Ibrahim, misto de profeta e balconista de uma padaria; Abdul Quddus, policial nova-iorquino; Mohamed Monir
dublê de taxista e imã.
Quddus, de 59 anos, nasceu no americaníssimo Harlem, descendente de escravos africanos, mas aderiu ao islamismo e fala árabe.
Com esse perfil, foi destacado por seus superiores para patrulhar o bairro. Ainda mais: trocou seu dia de folga pela sexta-feira, para poder orar na mesquita local.
Quando em patrulha, Quddus é saudado pela maioria dos frequentadores da região com salamaleques, na tradição muçulmana. Ele responde com citações do Alcorão.
Monir, de 42 anos, é paquistanês, filho de mãe iraniana. Anda sempre vestido com uma túnica branca. "É a cor da pureza, segundo o Profeta", explica. Sua testa tem uma enorme mancha, marca das cinco vezes por dia com que bate com ela no chão, orando por Alá.
O homem causa sensação quando desfila pelas ruas naquela túnica, enrolado num turbante, com barba negra e sapatos sem meias no frio nova-iorquino. Às vezes, ele é parado pela criançada, intrigada com a originalidade dos trajes. Mas ele não arrisca passear assim por Manhattan: "Quando vou lá, visto uma calça jeans", afirma.

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