Dubai, 22 (AE-IPS) - Os vizinhos árabes do Irã reagiram com cautela à vitória das forças reformistas nas eleições parlamentares iranianas da semana passada, em contraste com o entusiasmo ocidental diante do resultado.
A maioria dos Estados árabes do Golfo estima que a nova maioria reformista no parlamento iraniano contribuirá para o êxito dos esforços do presidente Mohhamed Khatami para pôr fim ao isolamento internacional de seu país, mas a história e a geografia fazem com que sejam mais cautelosos do que o Ocidente.
Arábia Saudita, Bahrein, Emirados árabes Unidos, Kuwait, Omã e Qatar, as seis ricas monarquias petrolíferas que integram o Conselho de Cooperação do Golfo, ainda não se recuperaram por completo do impacto causado pela revolução islâmica iraniana de 1979.
Esses países estão gradualmente melhorando suas relações com o Irã, mas não esquecem que o falecido aiatolá Ruhollah Khomeini, líder daquela revolução, declarou que seu objetivo era exportá-la para toda a região.
A grande vitória de Khatami nas eleições de 1997 ajudou os vizinhos do Irã a dar início a um processo de reconciliação, e os primeiros esforços do presidente iraniano para exercer uma influência moderadora na região ganharam muitos simpatizantes.
As inquietudes não desapareceram, entretanto, porque Khatami logo demonstrou que podia aliar-se com as forças conservadoras de seu país, em especial durante a repressão a protestos estudantis no ano passado, e no processo de veto a candidatos ao parlamento antes das últimas eleições.
"Com uma sociedade iraniana tão comprometida com as mudanças, e um sistema tão comprometido com seus próprios interesses, não será fácil para Khatami e seus reformistas cumprirem suas promessas", comentou o analista político Hamoud Salhi no diário Gulf News, dos EAU.
A inquietude dos Estados árabes do Golfo não se deve apenas à mistura iraniana de retórica radical e mensagens de moderação. O regime islâmico do Irã é hoje um vibrante exemplo de democracia em comparação com os sistemas de governo do resto da região, talvez com a única exceção do Kuwait.
O papel desempenhado pelas mulheres do Irã para conquistar espaços de poder e o persistente esforço dos meios de comunicação para burlar a censura do governo têm feito com que muitos habitantes dos países vizinhos observem com respeito e interesse a experiência iraniana de mesclar teocracia com democracia.
Essa situação causa preocupação em muitas autoridades, numa região afetada pelo enfraquecimento das bases de sua economia e o aumento das demandas sociais e culturais das novas gerações.
Assim, alguns não consideraram adequado falar no geral de "reformistas iranianos", porque pensam que a verdadeira contribuição do Irã à estabilidade regional dependerá das características das forças que acabem incluídas no grupo reformista.
Os integrantes da nova maioria parlamentar se uniram em torno de uma ideologia comum de moderação, mas mantêm condições de independência e cada um deles tem suas próprias preferências e antipatias.
Em tais circunstâncias, cabem algumas questões importantes. Por exemplo, até que ponto os novos parlamentares respaldarão os esforços de Khatami para estreitar os vínculos com o gigante regional, a Arábia Saudita, e resolver o conflito com os Estados árabes Unidos (EAU) pelas três ilhas que este país acusa o Irã de lhe ter ocupado.
No ano passado, a iniciativa conjunta da Arábia Saudita e do Irã para reduzir a produção de petróleo, a fim de aumentar seu preço no mercado internacional, parece ter dado resultado positivo para toda a região.
Entretanto, o principal problema de segurança na região ainda não foi solucionado. O Golfo é crucial para os interesses geopolíticos do Irã, e Teerã não pode aceitar com prazer sua exclusão do dispositivo de segurança regional liderado pelos EUA e instalado desde a Guerra do Golfo, em 1991.
A presença no Golfo de tropas de países distantes da região, que por muito tempo vem sendo uma causa importante de conflitos entre Irã e os países árabes, quase não foi discutida na campanha eleitoral iraniana.
Do ponto de vista dos países árabes do Golfo, a questão mais importante é a ordem de prioridades que adotará o novo parlamento iraniano em seus primeiros meses de trabalho.
Uma das principais causas do êxito eleitoral dos reformistas foi a mobilização dos jovens iranianos, muitos deles nascidos depois da revolução islâmica, que compareceram maciçamente às urnas.
As promessas eleitorais de mais liberdades individuais, menor controle dos meios de comunicação e esforços sustentados para a promoção dos direitos das mulheres fortaleceram os reformistas, apesar da forte oposição dos conservadores entrincheirados em vários organismos do Estado.
Poucos esperam que o novo parlamento se dedique imediatamente a impulsionar as reformas prometidas, dada a força ainda mantida pelos conservadores em instituições-chave como o Conselho dos Guardiões, o sistema judicial e os serviços de segurança.
O jornal Al Bayan, dos EAU, expressou o ponto de vista predominante nos governos da região ao assinalar que "os Estados árabes do Golfo, muito mais que outros países, devem observar de maneira cuidadosa e objetiva o desenvolvimento dos acontecimentos políticos no Irã".
Espera-se que em breve haja indícios da nova orientação do Irã nas relações com seus vizinhos, quando o aiatolá Khamenei, supremo líder espiritual iraniano, responda ao convite do rei da Arábia Saudita, Fahd bin Abdul Aziz, para realizar a Haj (peregrinação muçulmana à Meca) no mês que vem.

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