Os nordestinos que permanecem até hoje em Londrina são apenas aqueles que resistiram ao ''frio'' Acostumados ao clima mais quente da região de origem, muitos dos que vieram para cá foram afugentados pelas temperaturas mais baixas Os mais resistentes puderam, em parte, ser vistos na Festa Nordestina deste ano, que terminou ontem
''Quando está frio (no nordeste), faz 32, 38 ou 42 graus'', conta Maria Neuza Santos Silva, que veio de Ilhéus, na Bahia, em 1969 para levar seus conhecidos quitutes ao povo que ainda não sabia o que é vatapá, acarajé e caruru ''Quando faz 25, 26 graus, a gente coloca blusa de frio''
De tão famosa que ficou, D Maria Neuza foi até chamada para vender comida bahiana em Curitiba e no Rio Grande do Sul, neste último, com direito a passagem de avião Mas quem disse que ela foi? Se em Curitiba já foi difícil suportar o frio, imagine então no Estado mais ao Sul Mesmo aqui, ela fica só no verão Quando as temperaturas abaixam, a passagem para Ilhéus já está garantida
Trazido pelo irmão Raimundo Maia Campos Jr a Londrina depois de uma briga em um forró no Maranhão, o pintor e pescador profissional Francisco Melo Campos queria mesmo era voltar para a terra natal depois de sentir o clima daqui ''No começo foi difícil No frio, o nariz ficava vermelho e escorria demais'', ele lembra
Épocas diferentes, histórias parecidas
Raimundo Maia Campos Jr, idealizador da Festa Nordestina, mais conhecido como ''Ceará'', chegou a Londrina em 1982 e pisou a terra vermelha pela primeira vez bem ali, onde nos concedeu essa entrevista: na antiga rodoviária, hoje Museu de Arte, local que tradicionalmente abriga a festa ''Era oito horas da noite e o ônibus parou ali na segunda plataforma'', ele aponta Em seguida, ele descreve a forma como adentrou os territórios do sul ''A minha mala era um saco e meu cadeado era um nó'' Chegado na cidade aos 21 anos para morar com uma tia, ele passou por algumas empresas da cidade, formou família e entrou no serviço público
Da história de D Maria Neuza, dá até para lembrar de parte da fase áurea do café em Londrina De acordo com Campos Jr, muitos nordestinos vieram para cá atraídos pela cultura do café
A história da quituteira começou assim: o avô tinha uma fazenda de cacau em Ilhéus Abandonada pelo companheiro, a mãe começou a namorar um tropeiro O avô, sabendo da história, deserdou a filha, que tomou o pau de arara com Maria Neuza junto sem rumo, até chegar por aqui
As duas trabalharam em grandes fazendas de café de Londrina, carpindo e catando os grãos ''No começo, a gente pegava a peneira para abanar o café e caía tudo no chão'', lembra, bem-humorada, a cozinheira de mão cheia

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