'Aquele avião vai pegar a gente'
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sábado, 12 de março de 2016
Celso Felizardo<br> Reportagem Local 
Eram quase seis da tarde, mas o sol brilhava forte no céu de Londrina em 20 de janeiro, ainda horário de verão. Apenas algumas poucas nuvens se formaram naquela atípica quarta-feira após vários dias de chuvas devastadoras no início do ano. A estiagem era motivo de comemoração para oito operários que seguiam em uma Kombi pela PR-545, no Distrito da Warta (zona norte de Londrina). Haviam enfim retomado as pinturas de barracões agrícolas sem que a água levasse embora todo o dia de trabalho.
O trajeto pela rodovia que liga a zona norte da cidade - endereço da maioria deles - a Bela Vista do Paraíso não era estranho para os operários. Faziam parte da equipe mais experiente da empresa e percorriam toda a região. Naquele dia, porém, não estava nos planos do motorista Flávio Tosi, de 43 anos, fazer aquela rota. Ele retornava de Astorga pela BR-369 com seis deles quando recebeu uma ligação de última hora para desviar o percurso e apanhar o sétimo passageiro, outro pintor que aguardava carona no pátio de um restaurante da Warta.
A prudência ao volante adquirida nos 20 anos de trabalho pela mesma empresa não o fez sequer cogitar em pisar fundo para compensar o tempo gasto com o desvio. Já havia alertado a todos que chegariam um pouco mais tarde em casa naquele dia. Ninguém reclamou. Assim que o último operário subiu no utilitário, o motorista pegou o caminho de volta para Londrina. Na frente, ao lado de Tosi, viajava o cunhado dele, Diógenes Gomes Fagundes, de 45 anos. Atrás seguiam os dois filhos de Diógenes, Rodolfo, de 29, e Renan, de 21; além de Cléverson Pereira, de 37; Odirley Inácio, de 33; Luís Carlos Silva, de 28 e, Alex Brito, de 35.
Diógenes pouco conversava com o marido de sua irmã durante as viagens, já acostumado com a seriedade dele, que aumentava à boleia. Já atrás, os outros falavam sobre o serviço e dos peixes que carregavam, resultado da pescaria que fizeram em uma represa durante o intervalo do serviço. A atenção de Tosi era toda para a rodovia; nunca imaginava que o perigo viria do céu. Conseguiu ultrapassar alguns caminhões e, quando se aproximou do Aeroporto 14 Bis, tinha a pista só para ele. O barulhento motor Volkswagen não permitiu que eles escutassem um estranho ruído vindo do alto.
"Aquele avião vai pegar a gente." O baque que seguiu o alerta que fez foi a última lembrança de Diógenes, que só recobrou a consciência no 20º dos 28 dias que permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Evangélico. Só ali ficou sabendo do tamanho da tragédia. Havia perdido os dois filhos, o cunhado e três amigos. Além dele, apenas Brito e o piloto do avião haviam sobrevivido à tragédia.
Uma pane logo após a decolagem obrigou o piloto a fazer um pouso forçado. Ao tentar voltar ao aeroporto, ele perdeu altitude e atingiu a Kombi que trafegava pela rodovia. "Parecia uma bala vindo em nossa direção. Não deu tempo de fazer nada. Quando avisei, foi só o tempo do motorista virar o pescoço", lembrou Diógenes. A hélice da aeronave agrícola modelo Airtractor cortou a lataria da Kombi e arrastou o veículo cerca de 50 metros para dentro da plantação de soja. "Os bombeiros me disseram que eu conversei com eles, mas não lembro de nada", contou.
Os outros dois sobreviventes do acidente se recuperam bem. Alex de Brito, que fraturou a clavícula e sofreu queimaduras, teve alta dois dias após o desastre. Pelas redes sociais, divulgou fotos da tragédia e escreveu: "Eu sou um milagre de Deus". Brito, que mora na zona norte, se recupera na casa dos pais, no Distrito de Guaravera (zona leste), antes de retornar ao trabalho. Recentemente, fez uma visita a Diógenes.
Já o piloto do avião, Bruno Nobre da Costa, de 29 anos, que teve 10% do corpo queimado, recebeu alta nove dias após o acidente e não concedeu entrevista. O caso segue em investigação pela Polícia Civil e pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado à Força Aérea Brasileira.


