Curitiba - O discurso que o Papa Francisco fez ontem, nas Nações Unidas, em Nova Iorque, defendendo de maneira apaixonada a proteção ao meio ambiente, tem o poder de mobilizar multidões. "O efeito do seu ativismo tem sido muito grande. Líderes de outras religiões vêm se manifestando também", avalia Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, que participou, em Curitiba, do VIII Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
O empenho do Papa Francisco e de outras lideranças é bem vindo para chamar a atenção da população. Se há algumas décadas as questões climáticas eram recebidas pelos brasileiros como discussão de comunidade cientifica, a situação mudou e de Norte a Sul a população está sentindo na pele as consequências do aquecimento global.
O Observatório do Clima encomendou uma pesquisa para descobrir a opinião dos brasileiros sobre mudanças climáticas. O estudo mostrou que o cidadão está preocupado com o assunto e concorda que os efeitos do aquecimento global estão presentes no dia a dia das cidades, com muitos eventos extremos: seca, chuvas muito fortes e inundações.
"Dados da Universidade Federal de Santa Catarina mostram que ao longo do tempo esses eventos, aqui no Brasil, estão se tornando cada vez mais frequentes", conta. "É um sinal de alerta para que a população acorde e desperte para esse assunto."
Segundo Rittl, a maioria das pessoas que responderam ao questionário acredita que os governantes fazem menos do que deveriam para amenizar o problema. Investir em economia sustentável, em energia limpa, incentivar a agricultura e a pecuária mais eficiente e com menos emissão de poluentes, fiscalizar o desmatamento, promover a restauração de áreas danificadas são alguns exemplos de políticas e estratégias que ajudariam a diminuir a vulnerabilidade do Brasil a condições extremas, como a crise hídrica.
Segundo o secretário executivo do Observatório do Clima, houve uma pequena melhora no Brasil nos últimos dez anos em relação à conscientização da população e a algumas ações governamentais realizadas de forma fragmentada. Mas ele lembra que esse engajamento fragmentado não conseguiu levar o País a dar um salto para que a mudança climática se tornasse pauta de desenvolvimento e uma agenda de meio ambiente.
Tanto que, Rittl lembra, no ano passado a agricultura de baixo carbono ficou com apenas 3,3% do total de investimento do Plano Safra. Além disso, para os próximos dez anos, 70% dos investimentos no setor de energia contemplam combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). "Combustíveis que quando queimados geram mais gases do efeito estufa e agravam o problema em um país que tem outras alternativas energéticas", lembra.
Se os governos fazem menos do que deveriam, a população também tem tarefa de casa e pode ajudar, diz Rittl, com um padrão de consumo mais sustentável. "O cidadão também pode cobrar o poder público", avisa, lembrando que, enquanto eleitor, é possível votar em candidatos que entendam a gravidade do problema e estão dispostos a adotar políticas de desenvolvimento sustentável.

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