Brasília, 11 (AE) - O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso corre o risco de entrar em seu primeiro grande vazio administrativo nos próximos meses. Essa é a opinião que vem ganhando força não só entre as lideranças de oposição, mas principalmente entre os políticos da base aliada. Acostumado a fazer um governo marcado de ações parlamentares, Fernando Henrique começa a ser cobrado a apresentar respostas concretas. Até porque, com a aprovação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), o Congresso acaba sua missão, em relação as cobranças feitas pelo Executivo.
De agora em diante, o parlamento não terá mais votações de matérias com a exigência de três quintos, o que desobrigará o governo pela primeira vez da dependência absoltuta do Congresso Nacional. Mas, para os políticos aliados, o que seria bom poderá transformar-se em ônus para o presidente, já que daqui para frente ele passará a ser o único responsável pelo sucesso ou fracasso de sua administração, já que antes o resultado de suas ações era dividido.
"O presidente terá que mostrar ação administrativa com velocidade e precisão, senão o governo viverá o seu pior momento", adverte o vice-líder do PFL, deputado José Carlos Aleluia (BA). Para ele, o governo precisa fazer imediatamente o enxugamento da máquina, como uma das primeiras medidas. Mas a avaliação entre os aliados vai além.
A análise é de que o governo terá enorme dificuldade para tocar a reforma tributária. "Se a União partir para a reforma tributária no momento em que está mais enfraquecida e os governadores fortalecidos, ela será desmontada", constata Aleluia.
Por esse motivo, o vice-líder do PMDB, deputado Henrique Eduardo Alves (RN) acha que o governo não está mais interessado em fazer a reforma tributária. "Certamente a União irá perder e por isso o governo não demonstra mais a certeza de implementar a reforma", observa Henrique Alves. O deputado peemedebista também faz críticas ao governo. "O Congresso está quite com o governo; agora temos que cobrar resultados de Fernando Henrique", dispara.
E se quiser superar esta fase negativa, o governo terá mesmo que mostrar ação , até porque os índices de pesquisa mostram uma desaprovação absoluta de atual administração. Segundo pesquisa CNT/Vox Populi divulgada esta semana, enquanto 47% dos brasileiros consideram o governo Fernando Henrique ruim ou péssimo, apenas 19% acham o governo bom ou ótimo. Para o cientista político Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, é difícil assegurar se a popularidade do presidente irá piorar. "O certo é que tem espaço para cair", avalia Coimbra.
É bom lembrar que em maio do ano passado, quando o País enfrentava ao mesmo tempo seca no Nordeste, incêndio em Roraima, greve das universidades e epidemia de dengue, a avaliação positiva do presidente chegou ao seu nível mais baixo. Na ocasião, apenas 15% dos brasileiros consideravam o seu desempenho bom ou ótimo. Dentro do governo a apreensão é ainda maior, já que historicamente o pior momento das pesquisas nos últimos quatro anos sempre foi nos meses de abril e maio, já que a insatisfação cresce com a frustração do aumento do salário mínimo.
Reavaliação - Para Marcos Coimbra, a população poderá fazer uma reavaliação do nível de cobrança do governo Fernando Henrique. "O presidente passará a ser uma vítima de sua boa imagem no passado", observa. Segundo esse argumento, ele passaria a ser avaliado de forma mais parecida com seus antecessores, como os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor e Itamar Franco. "As pessoas deverão deixar de ser exigentes com a pessoa de Fernando Henrique e passarão a julgá-lo como um político igual aos outros", diz Coimbra.
Já os parlamentares tucanos apostam na recuperação do governo. Para o deputado e ex-ministro do Planejamento Antônio Kandir (PSDB-SP), é preciso apresentar uma agenda governamental, por meio de ações concretas que permitam fazer uma racionalização dos gastos. "Há espaço para melhorar a gestão", observa. Paralelamente, Kandir espera que em três meses o Banco Central conclua o conjunto de ações e normas que permita fazer uma política efetiva de metas contra a inflação.
Já para o deputado Emerson Kapaz (PSDB-SP) o governo precisará construir uma agenda positiva. "A principal preocupação terá que ser na área social para minimizar os efeitos da crise", avalia Kapaz. Ele também alerta para o risco de uma reindexação salarial. "Seria a hora de propor um abono que não representasse um aumento real dos salários", sugere o deputado tucano cobrando do governo ações concretas.
Enquanto isso, a oposição está cada vez mais pessimista em relação ao "vazio" que deverá enfrentar o governo Fernando Henrique. "O presidente está em dificuldade e sem força até para voltar a governar", avalia o governador petista, Jorge Viana (AC), um dos políticos mais moderados entre os oposicionistas. Para ele, a crise poderá sair do controle do governo. "O povo brasileiro está paciente demais", constata. "As pessoas não acreditam mais que Fernando Henrique pode fazer o governo funcionar."

mockup