Quando a apresentadora Cloara Pinheiro, 40 anos, disse para a filha Carolina, internada no hospital: ''Vai filha, descansa'', acharam que ela estava ficando louca. No enterro da filha, ela aplaudiu, e novamente pensaram que ela estava maluca.
Mas, engana-se quem acha que foi fácil enfrentar a morte da filha. ''O sorriso e a alegria nunca mais são os mesmos. É como aquela música - 'pois sem você minha alegria é triste'. Mas, se eu não posso mudar o destino tenho que aceitá-lo'', afirma. E as atitudes se explicam: Cloara pediu que a filha se fosse porque queria evitar mais sofrimento a ela, e aplaudiu ''porque ela foi uma guerreira''.
Carolina nasceu em 1989, quando Cloara e o marido moravam nos Estados Unidos. Nas fotos que Cloara mandava à família no Brasil, Carolina aparecia sempre com um clarão no olho esquerdo, como se fosse um ''olho de gato''. A mãe desconfiava: ''Sabia que tinha alguma coisa errada''.
Uma semana antes de Carolina completar dois anos, um oftalmologista detectou, através de um exame de fundo de olho, um tumor na retina (retinoblastoma). ''Foi um choque, um baque, mas a gente achava que ainda seria possível não retirar o olho'', conta Cloara. Ela foi para São Paulo, onde durante alguns meses Carolina passou por sessões diárias de radioterapia. A menina melhorou e a família voltou para Londrina, mantendo ainda as sessões de radioterapia de três em três meses.
Depois de um tempo, a mãe percebeu que a filha, já com três anos, estava perdendo o equilíbrio ao andar. A causa: um tumor no cérebro enraizado no tronco encefálico. ''A cirurgia para a retirada do tumor já era um risco. Procuramos um dos melhores neurologistas, em Curitiba, e foi sugado o máximo possível do tumor. O que sobrou foi tratado com quimioterapia'', relembra.
Neste período o tumor no olho reapareceu do tamanho de uma bolinha de pingue-pongue e a família não teve escolha, o olho esquerdo de Carolina teve que ser retirado. ''Ela viveu um ano assim, sem olho, mas sempre sorrindo, feliz. Todo dia eu limpava o local com cotonete, para que ela pudesse usar uma prótese, mas o local não secava, sempre tinha pus'', conta.
A doença de Carolina foi progredindo, o câncer atingiu o pulmão e causou a paralisação do intestino e dos rins. Durante 23 dias ela ficou em coma, respirando através de aparelhos. ''Pedia a Deus que desse um descanso para ela, pedia que ela fosse embora. O amor de mãe é muito forte, queria evitar que ela sofresse mais com dor, agulhas e tristeza'', relata.
Quando Carolina morreu, ou desencarnou como acredita a mãe, ela tinha cinco anos. ''Um mês depois recebi uma mensagem dela, através de Chico Xavier, de que ela estava bem, feliz, e que não era para a gente sofrer por ela. A missão dela aqui era de cinco anos, e se não fosse o câncer seria outro o motivo'', afirma. Para Cloara, a morte ''não existe'', mas é uma passagem para uma outra vida. ''Existe a morte do corpo, mas o espírito, a luz, continua''.
''Hoje eu não tenho tristeza, convivo com a saudade, imaginando como ela estaria. Sempre que passo por uma dificuldade na minha vida, lembro dela. Ela não tinha um olho, e foi guerreira, sempre vaidosa, passava batom cor de uva, feliz. Sei que ela está perto da gente, nos abençoando, e ela é danada, até conseguiu unir novamente o pai e a mãe dela'', relata. Ela e o marido Luís Cláudio se separaram um ano depois da morte da filha e há três meses voltaram a viver juntos. Cloara tem outro filho, Luiz Felipe, que hoje está com 11 anos.

mockup