Apostas do BC no câmbio futuro causaram perdas de R$ 7,6 bi
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domingo, 28 de março de 1999
Por Soraya de Alencar e Vânia Cristino 
Brasília, 29 (AE) - As perdas do Banco Central na Bolsa de Mercadorias e Futuro (BMF) totalizaram R$ 7,6 bilhões nos primeiros dois meses do ano. Em janeiro foram R$ 6,51 bilhões e outros R$ 1,08 bilhão em fevereiro. Os números foram confirmados hoje pelo chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central, Altamir Lopes.
Ele explicou que estas perdas têm impacto no déficit nominal (receita menos despesas mais juros nominais) do setor público, uma vez que são contabilizadas como gastos de juros. Isso porque os prejuízos foram considerados como uma despesa financeira.
O BC operava na BMF fazendo apostas no mercado futuro de dólares desde 1997. Por determinação do Fundo Monetário Internacional (FMI), entretanto, deixou de fechar contratos novos desde o início deste mês. "Vamos continuar operando somente os contratos já fechados", afirmou Lopes. Ele disse que os últimos contratos do BC serão liquidados em abril.
Na BMF, o BC atuava oferecendo hedge (seguro) a operações fechadas por devedores em dólares. Como os importadores, por exemplo. A sistemática dos importadores era a seguinte: uma vez contratada a operação de importação e assumida a dívida em dólar, ele buscava um hedge. Temendo uma desvalorização e tentando se proteger dela, este importador fechava um contrato garantindo que compraria os dólares mais barato.
Para isso, ele ia a BMF para ter a certeza que, no prazo acertado para o pagamento, compraria os dólares a uma cotação abaixo da desvalorização esperada.
Era exatamente neste ponto que entrava o Banco Central. Na BMF, segundo Lopes, o BC fechava contratos apostando numa apreciação do câmbio. Na verdade, a aposta era que o câmbio sofreria uma desvalorização menor que aquela estimada pelos importadores.
A atuação do BC, segundo ele explicou, tinha também o objetivo de acalmar o mercado pois, apostando que a desvalorização não seria aquela projetada, o banco podia conter as especulações,tanto do mercado futuro, como do à vista. O chamado mercado pronto.
No fechamento dos contratos na BMF, os clientes são obrigados a depositar um porcentual do valor apostado. Quando a cotação fica acima da aposta feita, o cliente é chamado a cobrir a margem. Ou seja, a depositar a diferença entre as cotações.
Com a desvalorização de janeiro, a cotação do dólar ficou muito acima das apostas do BC que, chamado a cobrir as margens, teve os prejuízos. É exatamente esta cobertura de margem que é considerada uma despesa financeira e, por isso, contabilizada como juros.
Emissão - Segundo explicou Lopes, para fazer o pagamento das perdas da BMF, o BC emitiu dinheiro. Isso significa que foram colocados mais reais em circulação. Para não deixar que o aumento de dinheiro em circulação tivesse impacto na política de juros, em seguida o Banco Central voltou a tirar os reais vendendo papéis, ou títulos, ao mercado.
Nos anos anteriores, o BC só havia tido lucro na BMF. Em 97, foram R$ 511 milhões e, em 98, R$ 506 milhões.


