Apostando em Pequim
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de dezembro de 1999
Por Brook Larmer e Mahlon Meyer, da Newsweek 
Pequim (AE-NEWSWEEK) - Os momentos finais da última e mais antiga colônia ocidental na ásia irão parecer, para um observador casual, absolutamente dignatários. Um pouco antes da meia-noite do dia 19 de dezembro, o presidente chinês Jiang Zemin, o presidente português Jorge Sampaio e 2.500 convidados irão se juntar em um salão de banquetes translúcido de vidro e aço em Macau para brindar o final de quase 450 anos de ocupação portuguesa. Quando o relógio na catedral de Macau marcar meia-noite, Portugal irá baixar sua bandeira em seu império que termina - e a bandeira vermelha da República Popular da China será levantada no lugar. O Champagne irá correr, fogos de artifício explodirão e Jiang saberá que ele e seu governo estarão a um passo de seu objetivo final: a reunificação da China.
Grande pompa e espetáculo, mas o fato é que a real transição para o domínio chinês já começou duas semanas atrás - e foi totalmente civil. Em 23 de novembro, o gangster mais poderoso do submundo de Macau, Wan Kuok-koi (apelidado de Dente Quebrado), entrou na corte número 1 do mais antigo tribunal de Macau para enfrentar o veredito em seu julgamento criminal. Vestido com um terno cinza com listras, o líder de 44 anos do 14K - uma sociedade secreta, ou tríade, que alimenta a indústria do jogo em Macau - parecia confiante enquanto sorria, piscava e conversava com seus amigos na galeria. Ele já esteve lá antes, e parecia seguro de que seu poder - que assustou várias testemunhas-chave - fará sua mágica de novo. Ferdinand Estrela, o juiz português trazido apenas para seu julgamento, respirou profundamente enquanto lia cada uma das acusações - liderança da tríade, lavagem de dinheiro, agiotagem, escuta telefônica - e entonou: "culpado". A sentença: 15 anos, a máxima.
Após um momento de silêncio surpreendente, a corte entrou em erupção. Os aliados do gangster na audiência, incluindo pelo menos uma de suas quatro esposas, gritaram de raiva. Conforme Estrela saía rapidamente da sala com uma guarda armada, Wan, agora algemado, gritava maldições para o juiz. Wan subiu em um banco e se voltou para a galeria. "O juiz foi influenciado!", gritou. Ele então olhou para baixo, onde um grupo de guardas da prisão, todos com coletes à prova de balas, estava pronto para levá-lo embora. Ele chegou perto de um dos guardas, colocou dois dedos em sua cabeça e disse: "Eu te matarei". Mais tarde, sentado na nova prisão de máxima segurança construída especialmente para ele e para seus comparsas, Wan deve ter se dado conta da repentina maré de azar da irmandade do submundo de Macau. No mesmo dia, logo após a fronteira em Zhuhai, autoridades chinesas condenaram - e executaram - outro líder da tríade e quatro comparsas por crimes cometidos em Macau. Digam olá para o novo chefe de Macau, e adeus, por enquanto, para os antigos.
O cronograma sendo coincidente ou não, muitos dos 430 mil residentes de Macau vêem a queda da tríade como um sinal: Pequim significa ação. E depois de dois anos de guerras sangrentas entre gangues e declínio econômico, poucos estão reclamando. Macau, como Hong Kong, terá 50 anos de garantia de auto-governo sob um acordo de "um país, dois sistemas" feito com a China. Mas ao contrário da antiga colônia britânica, que se irrita com cada sinal de domínio de Pequim, Macau parece quase aliviada com a futura transição - mesmo a chegada de mil tropas do Exército de Libertação Popular (ELP). O povo de Macau, onde mais da metade das pessoas nasceu no grande país, nunca esteve muito ligado a fortes instituições democráticas; eles não ligam para a idéia de que Pequim pode vir e tomar conta de tudo. "Pode-se esperar uma Macau bem pacífica e adormecida novamente", disse o bilionário proprietário de casas de jogos Stanley Ho. "As pessoas não precisam ter mais medo. Está tudo terminado".
Todos parecem estar apostando que os gangsters irão se manter quietos em face da dura justiça de Pequim. Homens de negócios locais esperam que os turistas voltem para os cassinos e ressuscitem a economia (A violência da tríade, junto com a crise econômica asiática, fez com que o PIB da região ficasse em apenas 6,8% no ano passado). Os portugueses, que pareciam sem esperanças em face à crescente corrupção e das guerras de gangues, querem deixar a colônia com um pouco de dignidade. Os líderes comunistas em Pequim estão ansiosos para tornar Macau um sucesso. Para eles, a entrega da colônia aponta para o futuro: Macau, como Hong Kong, deve se tornar um farol para Taiwan, a última peça para o quebra-cabeças da unificação. Como diz o advogado macaense Antonio de Almeida Ferreira: "Se Macau falhar
pode-se dizer adeus a Taiwan".
Não irá falhar por causa de qualquer resistência à entrega. A indolente colônia portuguesa sempre teve mais laços cordiais com a terra-mãe do que Hong Kong. Diferente da colônia britânica, que foi tirada da China durante as Guerras do àpio no século 19, Macau foi estabelecida três séculos depois com a cooperação da terra-mãe (os chineses que se estabeleceram em Macau eram em sua maioria fazendeiros buscando uma forma melhor de viver, enquanto Hong Kong tendia a acolher chineses em busca por liberdade intelectual ou grandes negócios). Os britânicos importaram as leis e as instituições democráticas, enquanto os portugueses deixaram um rico estilo de vida - boa comida, esplêndida arquitetura, relações pessoais amistosas - mas poucas instituições fortes para defender. Nos anos 70, na verdade, Portugal pediu para que a China pegasse de volta sua última reminescência de império. Mas Pequim quis esperar. Agora que o momento chegou, muitos donos de lojas de Macau estão comemorando o fato com grandes mensagens em vermelho que dizem: bem-vindo seja o retorno para a terra-mãe.
Mesmo assim, alguns residentes de Macau - especialmente os mais jovens - temem que o modo de vida não seja tão livre após a entrega. De Almeida, o advogado, teme que a pressão chinesa para condenar criminosos possa resultar em advogados e juizes passando por cima de procedimentos legais e direitos individuais. "Macau é uma criança obediente", ele disse, "e sabe o que papai quer". Em uma clara manhã de domingo recentemente, casais que queriam se casar se alinharam em frente à igreja Católica Romana Nossa Senhora. "Nós estamos nos apressando para nos casarmos antes da entrega", disse Anna Lou, 27 anos, segurando um telefone celular em sua orelha sob o véu. Ela e seu noivo, Thomas Ng, se conheceram cinco anos atrás em um dos cassinos locais, onde ambos trabalham. "Nós não sabemos se o governo chinês irá permitir que nos casemos em uma igreja sem permissão", disse.
Mas Pequim não vai mudar o modo especial de vida de Macau, mesmo ela tendo sido construída sobre algo que os comunistas abominam: a esquálida atmosfera de hedonismo-para-lucro que prevalece na cultura de cassinos de Macau. Jogar é ilegal na China. Mas Macau depende do jogo para 60% de seus lucros, e os líderes chineses são pragmáticos. Ninguém está sugerindo uma mudança. Não há alternativas viáveis. Já se foram os dias quando Macau era o posto comercial mais rico na ásia, monopolizando o comércio de sedas e especiarias, ouro e prata - e mandando missionários para salvar almas. Quando os britânicos abriram o porto de águas profundas de Hong Kong em 1841, logo eclipsando o de águas rasas de Macau, o local antes chamado de "A Cidade do Nome de Deus na China" se voltou para o tráfico de escravos e, 20 anos depois, legalizou o jogo. Quem podia imaginar que isto se tornaria o legado mais duradouro da colônia? Hoje Macau é um lugar de elegantes prédios coloniais tomados por grandes cassinos, onde prostitutas da Rússia e da China se alinham nos corredores, e onde "garotos das fichas" tatuados caminham pelas janelas dos caixas oferecendo empréstimos com juros altos. As tríades criminais dominam as ruas.
O que faz Pequim irritada não são os jogos ou as gangues, mas a violência desestabilizadora. A batalha começou em 1997, quando as tríades fugindo das crises em Taiwan e Hong Kong, junto com tríades da China - algumas compostas por ex-soldados do ELP - tentaram retirar de circulação os gangsters locais. Ficou pior no ano passado quando os lucros dos cassinos começaram a cair. A guerra era essencialmente uma batalha para controlar as chamadas salas VIP, cujos ganhos com as roletas eram responsáveis por quase metade do lucro anual de US$ 2 bilhões da indústria. O resultado foi fatal: mais de 80 pessoas foram mortas em três anos - incluindo 37 até agora este ano - e centenas de sequestros.
Nenhum líder de uma tríade foi mais ousado do que Dente Quebrado. Como chefe local da temida 14K, uma tríade com mais de 20 facções no mundo inteiro envolvida no tráfico de tudo, desde armas até imigrantes ilegais, Wan mostrou seu poder, até mesmo fazendo um filme, "Cassino", baseado em sua experiência nas guerras de tríades em Macau. Em uma entrevista em 1998 para a Newsweek, Wan falou sobre seu exército particular de 10 mil homens e declarou: "Não restou ninguém em Macau de quem se possa ter medo". Um mês depois, no dia em que uma bomba explodiu no carro do chefe de polícia, Wan foi preso. Por mais de um ano, fontes disseram, ele ainda conduzia seu império de sua cela na prisão, onde tinha telefones, televisões e a companhia de mulheres. Agora ele está trancado em uma fortaleza de segurança máxima nos montes da Ilha Coloane, a dois quilômetros da costa.
Mesmo com Dente Quebrado atrás das grades, poucas pessoas em Macau acreditam que as tríades irão simplesmente desaparecer. "Você corta a cabeça do dragão aqui", disse um antigo oficial de polícia de Macau, usando o nome de um líder de gangue, "e outra nasce naturalmente ali". O Chefe de Polícia Antonio Baptista, que prendeu Wan em 1998, disse que tem um preço por sua cabeça, então ele tem que "permanecer em seu esconderijo". Tantos policiais locais se recusaram a testemunhar contra Wan durante seu julgamento que Estrela teve que basear o processo em artigos da mídia, incluindo uma matéria da Newsweek. Enquanto Macau tiver cassinos e imensos fluxos de dinheiro, as tríades irão fluir. "Macau é um pote de biscoitos", disse um ex-agente de inteligência de Hong Kong. "E todos, até os chineses, querem colocar suas mãos sobre ele".
Até onde Pequim irá manter a paz? O general Liu Yuejun - comandante do posto militar do ELP logo após a fronteira em Zhuhai - contou que à televisão estatal chinesa no mês passado que suas mil tropas estavam prontas para "cuidar da manutenção da ordem social" em Macau. Em Hong Kong tal declaração teria dado início a um levante. Em Macau, onde o governo é visto como incompetente, os comentários mal levantaram uma sobrancelha. As forças policiais são amplamente vistas como muito corruptas - ou muito omissas - para lidar com as tríades. Edmund Ho, o banqueiro de 44 anos que será efetivado como novo chefe executivo de Macau em 20 de dezembro, disse que ainda há cooperação policiais locais e a inteligência chinesa. E ele prevê o pedido de uma ajuda mais direta. "Se a vida das pessoas em Macau for ameaçada precisarei do conselho ou da assistência do governo central, não irei esitar", afirmou.
Ho não é o único a manter suas opções em aberto. Stanley Ho está trabalhando duro para estender suas franquias de jogo depois delas expirarem em 2001; enquanto isso ele está investindo pesadamente nas Filipinas e em outros lugares. A pequena comunidade macaense - descendentes com sangue português e chinês misturados que somam um pouco menos de 20 mil - está estabelecendo um instituto cultural para que sua cultura única não seja engolida. Os novos chefes de tríades que virão podem não ser tão duros como Dente Quebrado: eles terão que engatinhar entre uma nova lei contra o crime organizado e as autoridades chinesas que não pensam duas vezes antes de executar criminosos violentos (Macau não tem pena de morte). Realmente pode haver menos violência sob o governo firme de Pequim. Talvez Macau possa voltar para seu calmo modo de vida - enquanto os cassinos, os gangsters e os novos mestres coloniais seguem no negócio de fazer dinheiro. "As pessoas não precisam mais ter medo"
Ninguém teve mais impacto na história moderna de Macau do que Stanley Ho, o magnata de 78 anos que comandou os 10 cassinos da colônia pelos últimos 37 anos. Ho, cuja concessão para o jogo termina em 2001, recentemente falou com os editores da Newsweek. Comentários:
Sobre sua concessão para jogo: Se eles tomarem a decisão prematura de terminar com o monopólio, isso pode afetar a estabilidade financeira e social de Macau. Com a competição, as licenças oferecerão mais incentivos aos jogadores e eles podem não conseguir dinheiro suficiente para pagar os impostos pedidos pelo governo. A China sempre favorece a estabilidade e a prosperidade. Estou investindo pesadamente em Macau.
Sobre a concorrência: novos concorrentes não podem ter sucesso. Um novo monopólio teria que manter um serviço de balsas de alta velocidade - pelo menos 150 viagens circulares por dia. Tenho 20 dragas para lutar contra o alta taxa de sedimentação do Rio Pearl. Quem em tão pouco tempo pode fazer isso?
Sobre o colapso econômico: Eles precisam relaxar o processo de imigração para que mais chineses entrem. Deixem entrar mais pessoas com cérebro, e não velhos, pobres e muito jovens - estes nós não podemos aproveitar.
Sobre os sequestros: Houve mais de 50 sequestros nos seis meses passados que não foram noticiados. As pessoas estão realmente com medo. Infelizmente, uma porção muito pequena da polícia está envolvida com as tríades. Em um caso, a vítima de sequestros foi à polícia - em duas horas, o sequestrador veio e disse: "Você quer que eu te mate da próxima vez?". A polícia havia contado o acontecido.
Sobre as tríades: Quando a bandeira de Macau for substituída pela bandeira comunista, as tríades irão embora. Elas não têm medo dos bons sistemas legais como Macau e Hong Kong, onde os juizes são tão complacentes e a condenação não é tão fácil. As tríades têm mais medo dos comunistas e da pena capital. Vocês podem esperar uma Macau bem pacífica e quieta novamente. As pessoas não terão mais que ter medo. Está tudo terminado.


