Aposente seus óculos
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de julho de 2004
Leandro Quintanilha<br>Agência Estado 
São Paulo- Parece milagre: você dorme míope e acorda enxergando nitidamente. É o que promete (e cumpre) a ortoceratologia, terapia que corrige temporariamente a visão, com uso de lentes noturnas, aplicadas também para astigmatismo. Ao amanhecer, o usuário tira as lentes e, por ao menos 16 horas, volta a enxergar o mundo perfeitamente, sem filtro nem enquadramento.
Os primeiros estudos da ortoceratologia surgiram nos Estados Unidos na década de 60, mas as lentes noturnas da época agrediam o epitélio (a pele do olho), provocando dor, além de não corrigir eficazmente a visão. Mas, nos anos 90, a tecnologia foi aperfeiçoada pelo oftalmologista australiano John Mountford e, hoje, o tratamento já é relativamente popular na América do Norte, na China e na Europa. No Brasil, poucos oftalmologistas empregam a terapia.
Canrobert de Oliveira, diretor do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), é um deles: As lentes noturnas podem ser usadas com sucesso em pacientes com miopia de até 4,5 graus e astigmatismo de até 1,5. Como funciona? As lentes noturnas são moldes que aplanam delicadamente a córnea durante o sono.
E, muitas vezes, elas nem precisam ser usadas todas as noites. Cerca de 30% dos pacientes as usam em noites alternadas e 20%, em uma a cada três. A terapia é temporária e reversível - quando suspensa, a córnea volta às condições iniciais em três semanas. O tratamento custa em média R$ 1,4 mil. São feitas várias topografias para se definirem as curvaturas apropriadas, explica Oliveira.
A durabilidade das lentes especiais é a mesma das lentes rígidas comuns: varia de um a dois anos, conforme os hábitos do usuário. A ortoceratologia é indicada a pacientes que não podem se submeter a cirurgias de correção da visão. Os procedimentos com laser são contra-indicados, por exemplo, a pacientes com córneas finas ou altamente flexíveis. As lentes noturnas são recomendadas também, é claro, a quem simplesmente tem medo de ser operado. O sargento militar Luiz Carlos André, 39 anos, usou óculos desde 1980.
Em junho deste ano, ele se submeteu a um teste com lentes noturnas feito no 32º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, na Bahia. São muito boas. Pude dirigir sem óculos pela primeira vez na vida. O sargento tem 1,25 grau de miopia e 0,75 de astigmatismo. Em março, a revista norte-americana Ophthalmology publicou uma reportagem sobre seis crianças chinesas, entre nove e 14 anos, que foram tratadas com infecções bacterianas nos olhos depois de usarem lentes ortoceratológicas. O fato é que, lá, as lentes são vendidas em feiras livres, sem fiscalização de procedência e condições de higiene, argumenta Oliveira.
Ele explica que as lentes modernas são gás-permeáveis, isto é, permitem a passagem de oxigênio, diminuindo o risco de infecção. Em todo caso, o oftalmologista recomenda que essas lentes só sejam usadas a partir dos 12 anos, pois, antes disso, a córnea ainda está em formação. No HOB, já foram tratadas, com sucesso, crianças de 12 e 13 anos. No Canadá, o tratamento é feito a partir dos sete, mas preferimos o padrão dos Estados Unidos, que institui os 12 anos como idade mínima.
Depois de muito procurar, a reportagem conseguiu encontrar um único oftalmologista que trabalha com lentes noturnas em São Paulo, Nilo Holzchuh. Receito lentes da nova ortoceratologia há um ano e meio, mas não sei de mais ninguém que o faça na Cidade. Holzchuh não quis citar valores, mas disse que o custo da aparelhagem que o tratamento exige é consideravelmente alto.
SERVIÇO
Mais informações sobre a ortoceratologia pelos telefones (61) 442-4000, em Brasília, e (11) 3032-2380, em São Paulo.


