Aparecida, SP, 06 (AE) - O aposentado Antonio Moraes dos Santos, de 66 anos, está enfrentando os 200 quilômetros da caminhada entre São Paulo e Aparecida, no Vale do Paraíba (SP), com uma disposição que ele mesmo desconhecia. Sequer dá importância para o cansaço e as bolhas nos pés. Para ele, o importante é pedir para Nossa Senhora Aparecida por um País melhor, com menos injustiças sociais e mais emprego. Essa é a primeira vez que se reúne ao grupo de romeiros do Grito dos Excluídos e aproveitou para trazer a mulher, a costureira Emília Bernardina da Costa, de 58 anos." A situação está dificil; só a mão forte de Deus para corrigir", comentou.
A marcha reuniu, num só bloco religiosos, aposentados, professores, desempregados, crianças e muita gente procurando o apoio da padroeira para mudar a situação das próprias vidas e do Brasil. O vigia desempregado Aloísio Lourenço dos Santos, de 38 anos, está sem trabalhar desde 1996.
Neste tempo, tem vivido de pequenos serviços e da ajuda da comunidade onde mora, em Perus, na periferia de São Paulo. A maior indignação dele é ver que ainda é forte suficiente para trabalhar, mas não consegue arrumar emprego. "Meus dois filhos e minha mulher vivem hoje da ajuda que recebo; quero levar esse meu protesto", afirmou.
A romaria está servindo para reafirmar as convicções políticas de alguns e despertar a de outros. A professora Zeinep Volfa de Souza, de São Paulo, procurou os organizadores para saber se poderia os acompanhar para pagar uma promessa na basílica, e encontrou sentido para muitas das dúvidas que tinha, acreditando que terá, assim, voz para expressar a insatisfação. Para ela, as pessoas procuram mais que uma demonstração de contrariedade "Aprendi muito com essa gente e está sendo muito emocionante."
O aposentado Eduardo José Moreira, de 49 anos, de Santo André, no Grande ABC (SP), vem também pela primeira vez ao encontro e trouxe um dos símbolos da peregrinação. Um cajado de madeira e um corôa feita com arame farpado são os ícones desta marcha. Ele conta que está indignado com a atuação política do governo, "que despreza o trabalhador e não consegue gerar novos empregos". "Trago esses objetos para lembrar que Jesus era o bom pastor", comentou.
A irmã de caridade Luiza Maria Coulé, de 64 anos, estava com o pé esquerdo em carne viva depois de caminhar 178 quilômetros em sete dias.
As enfermeiras que prestam apoio ao grupo fizeram um curativo no local. Mesmo sentindo dor, ela não desanima e acredita que esse ato de protesto possa vir a sensibilizar os governantes, tal a representatividade. "A marcha é religiosa, mas não dá para separar isto da política", observou.

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