Após morte de monitora da Zona Azul, colegas denunciam abandono do Bosque
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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Após a morte da monitora da Zona Azul Ellen Cristina de Oliveira, 34 anos, que foi atingida por um galho de uma árvore do Bosque Municipal na avenida Rio de Janeiro, no Centro de Londrina, na tarde de segunda-feira (18), colegas da vítima e moradores da região denunciam o abandono do parque. Falta de manutenção, árvores visivelmente condenadas, sujeira de pombas e problemas de segurança são as reclamações mais comuns.
A monitora faleceu na madrugada desta terça (19), na Santa Casa de Londrina, onde deu entrada no dia anterior levada por uma unidade do Siate após ter sido atingida pelo galho de aproximadamente dez metros. Além de fraturas em um dos ombros e lesões nas costas e cabeça, ela teria sofrido uma hemorragia interna na região do abdômen e não resistiu aos ferimentos. Conforme informações de colegas de trabalho, a funcionária da Zona Azul era divorciada e deixa um filho de 2 anos. O supervisor João Vagner Batista, que estava com a monitora e também foi atingido pelo galho, continuava hospitalizado na terça-feira, com uma fratura no nariz, mas sem risco de morte.
O clima entre os cerca de cem trabalhadores da Zona Azul que prestam serviços nas ruas de Londrina era de extrema comoção. Em homenagem à colega morta, eles não trabalharam na terça-feira. Um ônibus seria fretado pela Epesmel (Escola Profissional e Social do Menor de Londrina), responsável pelo serviço de estacionamento rotativo, para levar todos ao velório para as últimas homenagens. "Ela era um amor de pessoa, dava bom dia a todos e era muito querida. Poderia ter sido qualquer um de nós", lamentou o monitor de Zona Azul, Vítor Alencar, que trabalhava com a vítima.
Outros trabalhadores que não quiseram se identificar denunciaram que a região do bosque é o pior local de trabalho para a categoria. "Temos medo de assaltos, pois já houve casos de colegas roubados", disseram, destacando que, além do dinheiro da própria Zona Azul, os assaltantes levam celulares. A convivência com o mau cheiro provocado por fezes de pombas é outra reclamação, assim como o risco de quedas de árvores. "Somos orientados a nos abrigarmos nos dias de chuva, mas a Ellen foi atingida num momento em que não estava chovendo", disseram.
O relações públicas da Epesmel, padre Carlos Alberto Wessler, informou que a entidade vai fazer um ofício de recomendação à prefeitura em relação aos cuidados com o bosque. Ele explicou que a funcionária era contratada como celetista e, por isso, foi aberta uma CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho). "Vamos prestar todo apoio à família em relação ao funeral", comunicou.
A diretora do Sindurbano (Sindicato dos Trabalhadores em Urbanização do Estado do Paraná), Elza Hirosse, esteve na sede da Zona Azul, no centro de Londrina, para prestar solidariedade aos trabalhadores.
O coordenador da Zona Azul em Londrina, Wellington Marcati, confirmou a dispensa dos agentes e comunicou que o centro ficaria descoberto do serviço na terça-feira, mas que o atendimento volta ao normal nesta quarta-feira (20).
'Foi uma tragédia anunciada', dizem moradores
Moradores e pessoas que trabalham na região central de Londrina confirmam o descaso apontado por trabalhadores da Zona Azul em relação ao Bosque Municipal. Iraceles Veríssimo, que mora no entorno do parque e faz parte de uma comissão de moradores que foi criada para monitorar o espaço e reivindicar melhorias, denunciou que já tinha avisado a prefeitura sobre o risco de novas quedas de árvores após as tempestades de novembro.
"O bosque está novamente abandonado. Muitas árvores precisam ser erradicadas por causa de cupim e ninguém faz nada. Essa foi uma tragédia anunciada; o bosque precisa de um olhar urgente", lamentou.
Segundo ela, a comissão de voluntários tem cuidado de gatos e gambás que vivem no parque em uma tentativa de reduzir a população de pombas e, assim, minimizar o mau cheiro. A moradora afirma que os gambás comem ovos das aves. "Também fazemos mutirões de limpeza todos os sábados, mas o local tem muito mato e água parada."
O taxista Mário Lemes de Proença tem um ponto em frente ao bosque, na avenida Rio de Janeiro, e há alguns anos vem notando a deterioração do espaço público e o descuido com a vegetação do local. "Eu e meu colega ficamos de olho. Quando começa a ventar e a chover, a gente sai daqui e espera o mau tempo passar." O receio é que o enorme eucalipto que fica bem em frente ao ponto de táxi caia sobre eles. "Eles vêm aqui podar, mas só retiram alguns galhos. Não está seguro. O bosque está abandonado."
A árvore da qual soltou-se o galho que caiu sobre a agente da Zona Azul nesta segunda-feira (18) vinha dando sinais de que não estava saudável. Na semana passada, um outro galho, um pouco menor, já havia caído sobre a calçada, obstruindo a passagem de pedestres. A zeladora Arline Silva tentou remover o pedaço da planta, mas era pesado demais. "Um deficiente visual estava passando por aqui e tentei tirar o galho para ele poder passar, mas não consegui", comentou, mostrando no celular dezenas de fotos que enviou pelo WhatsApp a órgãos municipais, ao prefeito Marcelo Belinati (PP) e a veículos de imprensa.
Junto com as fotos, o pedido de remoção do galho e o apelo por melhores cuidados com o bosque. "Mandei essas mensagens no dia 16 de dezembro. Eles estavam sabendo e tiveram tempo para tomar uma providência. Ainda tem um galho pendurado ali que pode cair em cima de outra pessoa, de um carro. O que a prefeitura vai fazer?"
O lavrador José Vitor Luiz Prandin mora no distrito de São Luiz e pelo menos uma vez por mês vem à cidade para trazer os pais para receberem a aposentadoria e costuma aguardá-los na calçada do bosque, sob a sombra das árvores. Era o que ele fazia na manhã desta terça-feira (19) e ficou espantado ao saber da morte da agente da Zona Azul. "Já vi, em dia de vento forte, uma árvore cair aqui, mas foi no meio do bosque. Não atingiu ninguém. Tem outras árvores aí dentro que a gente vê que estão perigosas. Quem cuida desse lugar? Tem que cuidar melhor porque você vê, uma pessoa está trabalhando e morre. Essas árvores não aguentam o vento".
Sema anuncia estudo para erradicação
A Sema (Secretaria Municipal do Ambiente de Londrina) vai fazer um levantamento florístico nas árvores do bosque para avaliar a necessidade de erradicação de espécies e solicitar licenciamento ao IAP (Instituto Ambiental do Paraná) para o corte das plantas em más condições. A informação é da secretária do Ambiente, Roberta Silveira Queiroz, que anunciou a medida após a morte de Ellen Cristina de Oliveira.
Segundo a Sema, houve duas manutenções preventivas no bosque em 2017, com podas para levantar a copa e melhorar a incidência solar. "Infelizmente não conseguimos evitar o fato", disse. Ela afirmou que, durante o serviço de manutenção, não foi feita uma análise mais profunda sobre a necessidade de erradicar árvores. "Em uma avaliação inicial, não achamos que havia riscos, mas agora faremos o levantamento para solicitar a autorização ambiental", reforçou.
A secretária explicou que o bosque é considerada área de preservação permanente e, por isso, o licenciamento é necessário. "Sabemos que há árvores que precisam ser erradicadas, não apenas por questões de saúde, mas também por ser um espaço de vegetação nativa", disse.
Ainda não há prazo para concluir o levantamento. "Há uma equipe exclusiva para recolher os galhos derrubados pela cidade na última tempestade, o que afeta nossa capacidade de atendimento e gera atraso em outros setores", destacou. Segundo ela, a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) tem feito a lavagem do parque para minimizar a poluição causada pelas pombas e também pintou equipamentos públicos, em atendimento a pedido dos moradores da região.
SEGURANÇA
A Guarda Municipal e a Polícia Militar negam que a segurança seja deficitária nas proximidades do bosque. Daniel Sakama, diretor da GM, disse que há câmeras instaladas e viatura fixa. "É uma região que tem viatura fixa e a Guarda Municipal realiza patrulhamento preventivo", afirmou.
O tenente Emerson Castro, do setor de Comunicação Social do 5º Batalhão de Polícia Militar de Londrina, mencionou a presença de mendigos e de usuários de drogas no bosque. "Não há grande incidência de crimes, mas o policiamento é realizado com maior intensidade devido a grande movimentação de pessoas", afirmou.(C.A./Vítor Ogawa)


