Após 16 anos, pais encontram filho sequestrado
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sábado, 09 de novembro de 2002
Sandra Sato 
Brasília - Às 6 horas de ontem, o telefone tocou na residência da família Tapajós. ''Jairo, o seu sofrimento acabou. É o Pedrinho'', avisou o agente da Polícia Civil Fabio Barcelos, o primeiro a ver o resultado do exame de DNA, confirmando que O.M. B. J. era realmente Pedrinho, o bebê de 1 dia de vida sequestrado em 21 de janeiro de 1986. Ele estava em Goiânia e só soube que era adotado na semana passada.
Incrédula e calejada com seis alarmes falsos, Maria Auxiliadora Rosalino Braule Pinto quis ouvir do agente a confirmação. ''Repete'', pediu quatro vezes. ''Não tem como estar errado'', insistia o policial, informando que o resultado deu 99,99% positivo.
Pedrinho foi levado do quarto, onde estava com a mãe e a avó, por uma mulher alta e morena clara, que se identificou como ''assistente social'' do hospital particular em que nasceu. Vilma Martins Borges, a mãe adotiva, contou à polícia que o bebê chegou a sua casa trazido pelo marido, morto no mês passado. Ele teria dito que uma gari de Brasília havia lhe dado o bebê. Vilma, que andava deprimida com a morte do recém-nascido, após cinco abortos, garantiu não saber que o menino havia sido sequestrado. Pedrinho foi registrado com o mesmo nome do pai adotivo.
A verdadeira história só foi descoberta após a morte de Osvaldo, o pai adotivo. Os herdeiros não queriam dividir a herança com o jovem, alegando que ele não era filho legítimo. Uma amiga do garoto, cuja identidade não foi revelada pela polícia, ficou intrigada com a história. Na internet, na página da organização não-governamental Missing Kids, ela descobriu o caso Pedrinho. As datas do nascimento e as medidas do garoto coincidiam, mas o que impressionou foi a foto de Jairo, o pai biológico, com apenas 10 anos. Era a ''cópia'' do amigo. Foi quando decidiu fazer a denúncia ao serviço SOS Criança.
A gerente do SOS Criança, Ivanda Martins, manteve contato com a adolescente por cerca de um mês. As informações eram repassadas à Polícia Civil, que começou a seguir o garoto. Fotos e vídeos foram feitos para mostrar a Jairo. Após autorização judicial, a polícia foi até o sobrado onde mora Pedrinho e localizou com uma das irmãs recortes de jornais sobre o sequestro do bebê. A mãe adotiva, de início, garantiu que o filho era legítimo. Mas depois acabou contando a versão da doação. Começou então a batalha para realizar o exame de DNA.
Emoção - Ontem, após a confirmação do resultado, os pais biológicos conversaram por telefone com Pedrinho. Pela primeira vez, Lia pôde dizer ''meu filho''. Sentiu-se mal, quase desmaiou e começou a chorar. ''Não chore'', pediu o rapaz. ''Temos amor para te dar e nenhuma imposição para fazer'', afirmou, após retomar o fôlego. Contou também que não houve um dia nos últimos 16 anos em que não pensasse onde e com quem estaria o filho desaparecido. ''Foi a ausência mais presente.''
Ela e o marido, Jairo, deixaram claro a Pedrinho que pretendem ser mais uma família para ele. ''Não quero tirar a mãe que ele tem'', diz Lia, que, no entanto, não esconde o desejo de ver o jovem perto dela.
Segundo a mãe biológica, o rapaz está muito assustado com a repercussão do caso. Na conversa, pediu ajuda para livrar-se dos jornalistas. Lia e Jairo argumentaram que não tinham esse poder. Mas se comprometeram a não expor o garoto. O reencontro seria longe das câmeras. Lia afirmou que certamente dará um abraço no filho. Mas que irá com calma para não assustá-lo ainda mais. Levará para ele as cartas que escreveu por anos, um diário com histórias da família e os sentimentos vividos com o sumiço do filho. As cartas serão publicadas em um livro.
Sequestradora - A Polícia Civil afirma ainda ter identificado a sequestradora, mas não pretende revelar a identidade, pois o crime já prescreveu. ''A família terá de entrar com ação civil de reparação. Se o juiz me chamar, conto tudo'', disse o diretor da Polícia Civil do Distrito Federal, Laerte Bessa. Lia tem curiosidade em saber por que a mulher escolheu justamente o seu filho e saber a sua identidade. ''Não nos interessa vingança'', acrescenta Jairo.


