Após 155 dias, fazendeiro é libertado em São Paulo
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2003
Agência Folha 
São Paulo - Terminou ontem um dos sequestros mais longos da história do País, de João Bertin, 82 anos, patriarca da família dona de uma das maiores redes de frigoríficos no Brasil. A vítima foi libertada após a prisão do homem acusado de ser o líder da maior quadrilha de sequestradores já descoberta.
Bertin foi sequestrado por cinco homens no dia 8 de setembro do ano passado, em sua fazenda em Sabino (483 km de São Paulo). No total, passou 155 dias no cativeiro.
O resgate exigido pelo sequestradores, de US$ 800 mil (o pedido começou com US$ 3 milhões), não foi pago. A libertação do fazendeiro foi negociada durante oito horas em uma casa na periferia de Curitiba a partir das 20h de anteontem, onde a polícia manteve cercado Pedro Ciechienovisk, 48, apontado como mentor da quadrilha e do plano.
Bertin foi solto em uma estrada de Assis (427 km de SP) no início da manhã de ontem. Ele pegou carona em um ônibus escolar. Na escola, ligou para a família, que chegou de helicóptero à cidade. Bertin contou que ficou trancado em um quarto de uma casa no meio do mato.
Ele disse que fazia três refeições diárias, não podia ver televisão nem ler, mas que não foi maltratado pelos dois sequestradores mascarados que ficaram no cativeiro. Bertin não ficou amarrado e tinha banheiro exclusivo. Em casa, no município de Lins, o fazendeiro tomou banho, cortou o cabelo e disse a repórteres que só queria almoçar com a família.
Com a rendição do sequestrador, também conhecido como Tio, Polaco e Alemão, terminou uma investigação de 18 meses, que começou em setembro de 2001, após a morte no cativeiro do estudante José Luiz Lanaro, 24, em Sorocaba, e do sequestro do empresário Roberto Benito Júnior, da rede Lojas Cem, em Salto.
Segundo a polícia, Tio comandava um grupo de 38 pessoas já identificadas, que agiam divididas em células independentes, de modo semelhante à atuação dos grupos terroristas internacionais que sequestraram no Brasil o empresário Abílio Diniz, na década de 80, e o publicitário Washington Olivetto, no ano passado.
Nascido em Tupã, o líder da quadrilha é investigado por 15 sequestros, entre eles o do empresário Girz Aronson, em 98, do banqueiro Ezequiel Nasser, 94, e do empresário Abrahão Zarzur, acionista da multinacional Ripasa S/A (uma das principais empresas do setor de celulose e papel do país), casos não esclarecidos até hoje.
A estrutura montada por ele protegia bem seu nome. Apenas nos últimos cinco meses da apuração é que seu apelido apareceu. Os grampos telefônicos só começaram a ser feitos em dezembro.
''O que nos chamou a atenção foi a dificuldade de saber quem era o líder dos sequestradores'', disse Tanganelli. Segundo ele, está comprovada a participação do grupo de Tio em quatro crimes: o de Benito Júnior, o do caso Lanaro, o da filha de um empresário de veículos da Grande São Paulo, em 99, e o da filha do dono de uma distribuidora de combustíveis de Campinas.
Até agora, 13 pessoas foram presas e duas morreram - um doleiro, assassinado pelo próprio grupo por ter sumido com dinheiro de um sequestro, e outro, em confronto com a polícia. Os demais estão foragidos e com a prisão decretada.


