Apoio político nos EUA depende de sucesso rápido e indolor da operação Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 24 (AE) - Minutos depois de o presidente Bill Clinton confirmar o início do ataque das forças da Aliança Atlântica contra a Iugoslávia, durante uma breve aparição na sala de imprensa da Casa Branca, na tarde desta quarta-feira (24), o líder da maioria republicana no Senado, Trent Lott, divulgou uma declaração de apoio às tropas americanas engajadas - via controle remoto, por ora - na ação punitiva contra o governo de Slobodan Milosevic.
Nos últimos dias, o líder republicano manifestara sérias dúvidas sobre a operação. Hoje, Lott disse que, apesar de suas reservas, o Congresso autorizará "todos os recursos" necessários para os soldados norte-americanos "garantirem uma conclusão bem sucedida de sua missão e um retorno salvo e seguro às suas famílias".
Na noite de terça-feira, o Senado já havia avalizado a participação dos Estados Unidos no ataque, por 58 votos contra 41. Como indica a declaração de Lott, no entanto, o grau e a duração do apoio político nos EUA à operação para convencer Milosevic a aceitar os termos do acordo sobre a autonomia da província separatista de Kosovo, negociado em Paris, dependerá da rapidez e eficácia com que ela for concluída.
A premissa em Washington é que uma intensa campanha de duas a três semanas de bombardeios aéreos contra as forças sérvias será o suficiente para dobrar o líder iugoslavo, cessar o massacre de guerrilheiros e civis em Kosovo e levá-lo a assinar o acordo de Paris.
Este prevê a presença de milhares de soldados da Otan para garantir a autonomia limitada da província meridional do que restou da antiga Iugoslávia e a segurança de sua população de 1 6 milhão.
Mas e se Milosevic não seguir o roteiro imaginado pela Casa Branca e os demais governos da Otan e resistir? Continuar o bombardeio aéreo é a única resposta que os estrategistas americanos parecem ter para essa pergunta. Neste caso, os aliados terão provavelmente que se sujeitar a perdas de aviões e pilotos, o que testará o apoio político ao ataque.
Mas a possibilidade de ampliar o envolvimento da Otan enviando forças terrestres a Kosovo, na ausência de um acordo de paz, simplesmente não faz parte dos cálculos de Washington. Embora possa se tornar uma alternativa imposta por um resultado político negativo do ataque aliado, essa idéia não parece ter sido contemplada até agora nem sequer como hipótese. A razão óbvia é que ela não teria apoio político no Congresso.
O ex-secretário de Estado Henry Kissinger, uma das vozes mais respeitadas do establishment americano em questões de segurança internacional, manifestou publicamente sua apreensão na véspera do ataque. "Apoiarei o presidente tão logo a ação militar seja iniciada, mas devo dizer que sinto uma enorme inquietação diante da falta de uma estratégia clara, da ausência de uma estratégia de saída e da possibilidade de estarmos entrando num conflito interminável", disse Kissinger, na noite de terça-feira.
O principal argumento da administração americana para justificar o primeiro ataque da OTAN contra uma nação soberana em seus 50 anos de história como aliança defensiva é que conter a agressão sérvia em Kosovo é a única maneira para impedir uma crise de refugiados em larga escala na região e desestabilizar países vizinhos como a Macedônia, Albânia, Montenegro e Bósnia - caldeirões de conflitos étnicos seculares reacendidos no final da década passada pelo colapso do comunismo e a fragmentação da antiga Iugoslávia.
Na terça-feira, Clinton afirmou que até mesmo a Grécia e a Turquia, dois países membros da Otan com velhas questões de fronteira mal resolvidas, poderiam ser tragados numa explosão desses conflitos. Hoje, Washington lamentou a decisão do governo da Macedônia, uma republiqueta de menos de 450 mil habitantes, de fechar suas fronteiras para refugiados de Kosovo.
Mas estudiosos dos Bálcãs afirmam que o ataque da Otan contra a Iugoslávia poderia produzir exatamente o resultado que foi calculado para evitar, alimentando o nacionalismo albanês na região. Mais de 80% da população de Kosovo é de origem albanesa.
Ivo Daalder, que foi conselheiro da Casa Branca para questões dos Bálcãs no primeiro mandato de Clinton, disse ao Washington Post, na terça-feira, que a administração não sabe exatamente o que fará se Milosevic não ceder depois de alguns dias ou mesmo várias semanas de bombardeio. O especialista acredita que a resposta, nesse caso, seria a OTAN aumentar a aposta e passar a apoiar a independência de Kosovo.
Dependendo da dimensão do estrago que o ataque produzir na Iugoslávia, seu principal efeito poderá ser o de levar Belgrado a perder qualquer controle sobre Kosovo. Nessa hipótese a independência de Kosovo se tornaria inevitável.
Mas esse não é o desfecho que Washington e seus aliados buscam
pois, nesse caso, eles seriam forçados a reconhecer um novo estado nos Bálcãs e armá-lo ou intervir com tropas para evitar sua independência e impor o acordo de Paris, que garante apenas a autonomia da província.
Qualquer dos dois cenários, e vários outros que podem surgir de desdobramentos imprevisíveis, indicam que os EUA e a Otan desencadearam uma ação de resultados no mínimo incertos.





