Apoio do sindicato para produtividade fez Ford recuar
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 1999
Por Marli Olmos 
São Paulo, 11 (AE) - A Ford tem 10 meses para elevar a produtividade da sua fábrica de São Bernardo do Campo em 130%. Isto significa que cada trabalhador, que produzia 30 veículos por ano, vai ter que atingir a média de 70. Para atingir os mais altos graus de eficiência e competitividade, a montadora conta com a cumplicidade do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Foi para ter o respaldo do sindicato nessa empreitada que a Ford voltou atrás na decisão de demitir 2.800 empregados de uma só vez.
Se em dezembro as demissões pareciam a única saída para chegar à competitividade, pouco mais de um mês depois a direção da montadora se viu obrigada, pela pressão trabalhista, a substituir o corte radical por um programa de voluntariado, democrático e - o mais importante - com respaldo do sindicato. A empresa entendeu que teria, a todo custo que conquistar eficiência para que a fábrica de São Bernardo não feche. "Caso contrário nosso acionista vai dizer: aqui eu não coloco mais dinheiro", observa o diretor de Recursos Humanos da Ford para a América do Sul, Carlos Augusto Marino, em entrevista exclusiva à AGÒNCIA ESTADO.
O brutal aumento no índice de produtividade é uma exigência do mercado globalizado e, no Brasil, repleto agora de novas marcas. "Se não cuidarmos disso vamos morrer por inanição", avisa o executivo. Negociador do acordo, Marino se habituou a conviver com críticas que têm circulado no setor na última semana, desde o fechamento do acordo. A maioria das farpas vem de consultores, que Marino caracteriza como "pessoas de fora que não participaram do processo para entender como se leva uma empresa à competitividade".
Marino e equipe passaram seis dias explicando aos sindicalistas que a pura readmissão dos 2.800 trabalhadores só serviria como "um esparadrapo" de um problema muito maior. Perceberam, ao mesmo tempo, que não conseguiriam o respaldo nem do movimento sindical e nem tampouco dos trabalhadores que ficaram, desgastados com mais de 40 dias de protesto, se não cedessem.
A saída - deixar os excedentes em casa - e abrir um programa de demissões voluntárias tem um custo - R$ 6 milhões por mês. Mas Marino conta com o aval da companhia porque, em troca, se comprometeu a adequar a fábrica à tão decantada competitividade. Para esse compromisso, ele conta com o apoio - assinado em documento - de Luiz Marinho, o presidente do sindicato.
Recursos humanos - O desfecho da crise na Ford, que Marino chama de "experiência inusitada", serve, ainda, como exemplo da ação localizada da área de Recursos Humanos da segunda maior montadora do mundo numa subsidiária localizada num País que se transformou no atual foco indústria automobilística mundial em razão do potencial de seu mercado. "Pensar que a área de recursos humanos só serve para fazer o pagamento dos funcionários é a mesma coisa do que ter um computador Pentium de última geração só para mandar E-Mails", destaca Marino.
A área de recursos humanos da Ford enfrentou divergências com o setor de manufatura, que baseava suas posições em cálculos lógicos, de mercado. "É preciso que o mundo empresarial entenda que o setor de recursos humanos existe para ajudar a viabilizar a estratégia da companhia porque existe um conteúdo chamado gente, seja qual for a quantidade, nem que seja uma única pessoa encarregada de apertar o botão do robô", destaca.
No próximo dia 18 Marino e Marinho voltam a se encontrar para avaliar os progressos no programa de voluntariado. Até agora há 100 candidatos. Somados aos que já haviam decidido deixar a empresa depois do anúncio das demissões, em 18 de dezembro, a Ford tem ainda um excedente de 2 mil. O pessoal que a empresa não precisa mais porque as metas de produtividade são ousadas demais para um mercado que encolheu fica em casa. E os que trabalham garantem à empresa se livrar do pesadelo de uma greve, que a levaria ao fechamento em poucos meses.
Como atingir os objetivos do voluntariado é ainda uma incógnita. Sindicato e Ford trabalham. Mas, desta vez, juntos. E pouco divulgam. Existem muitos caminhos. Um deles é trabalhar com a indenização para atrair mais gente. Marino lembra que o novo método de enxugamento tem um custo; mas não prazo tão apertado como antes. A área de recursos humanos recebeu da companhia o aval necessário para dirigir o processo sem pressa, desde que os objetivos sejam atingidos. Também ganhou orçamento para isso. "Não é mais aquela situação imperativa de dezembro, em que tínhamos que tirar os 2.800 da fábrica", explica Marino.
O plano de aumento da produtividade prevê não apenas o enxugamento do efetivo, como também a terceirização. Assim como as montadoras que estão se instalando no Brasil, a Ford quer concentrar seu trabalho na montagem dos veículos e fazer o menor número de componentes - como os bancos, por exemplo. A logística também se inclui nessa estratégia - quem pode cuidar das empilhadeiras é um especialista nisso e não mais o fabricante do veículo.
É ponto de honra agora, portanto, segundo Marino, fazer da planta do ABC uma fábrica viável e competitiva. A opção de fechar e concentrar a produção em Guaíba (RS), onde a montadora vai fazer uma nova fábrica, ainda não seduz o board da companhia. "Uma nova fábrica precisa de pelo menos dois anos para deslanchar; não podemos esperar tudo isso", explica Marino.
História - O desfecho do acordo na Ford não se limita aos mais de 40 dias de negociação desse caso. Ford, sua comissão de fábrica e o sindicato do ABC se transformaram numa espécie de protagonistas do movimento trabalhista. Mas Marino explica que foi a partir de 1992 que a empresa percebeu a necessidade de ter uma relação mais franca e aberta com o sindicato.
Foi nessa época, quando Ford e Volkswagen ainda estavam juntas na Autolatina, que a montadora levou um grupo de 15 sindicalistas para visitar fábricas na Europa. A partir daí, a relação parecia ter melhorado. Antes disso, a fábrica do ABC foi o palco de greves complicadas e episódios que incluíram até violência.
Primeira empresa a ter uma comissão de fábrica eleita pelos próprios trabalhadores, a Ford destituiu essa representação em 1986 em razão de conflitos. Em 1990 acumulou 2 2 milhões de horas paradas em razão de greves. É como se 1.100 empregados tivessem ficado em casa durante um ano inteiro.
O ano de 1990 teve como marco o episódio em que os empregados incendiaram os carros da diretoria e danificaram equipamentos do escritório. O motivo da ira foi a decisão da diretoria da Autolatina de suspender o pagamento de 8 mil trabalhadores quando apenas 800 estavam em greve. Foi um exemplo da intromissão do pessoal de manufatura - que baseou a decisão no fato de que toda a produção estava parada. "Não tenho a menor dúvida de que foi um erro da empresa", lembra Marino.
Em 1992 a situação se complicou quando a direção da Autolatina decidiu separar as áreas de recursos humanos e de relações trabalhistas. A primeira cuidaria das questões básicas como remuneração, estrutura e benefícios, enquanto que a segunda lidaria com dissídios e relacionamento com sindicato. A empresa percebeu, então, segundo Marino, que ganharia mais se envolvesse o sindicato nas decisões antes que elas fossem tomadas. Os conflitos continuaram.
Mas a mudança na estratégia trouxe uma diminuição nas paralisações, A montadora terminou 1992 com 180 mil horas paradas, 92% menos do que em 1990.
Em 1995, a Ford negociou o primeiro acordo de jornada flexível com a criação de banco de horas. No ano seguinte, foi criado o bolsão, por meio do qual os empregados ficavam em casa até o mercado melhorar. Deu certo. De 500 afastados, 350 retornaram ao trabalho cinco meses depois.
Desde a decisão de modernizar totalmente a fábrica de São Bernardo para receber a nova geração de carros pequenos - o Fiesta e o Ka - a Ford vem enxugando o quadro num incansável programa de voluntariado. Saiu de 12 mil para 9 mil empregados. Em dezembro passado, a empresa optou pela demissão de um turno inteiro de trabalho - medida igual havia sido tomada em 1986.
A diferença é que daquela vez, dois anos depois o segundo turno foi reconstituído e boa parte dos demitidos retornou à empresa. Desta vez, não há sinais de reaquecimento no mesmo prazo. Por que as demissões foram feitas por carta? Por que na véspera do Natal? Estas são perguntas que a direção da Ford vai amargar por muito tempo.
Carlos Augusto Marino, o diretor de 52 anos que começou a trabalhar na Ford há 30 como horista, responde: "se fosse eu o demitido eu preferiria que isso acontecesse a tempo de eu poder guardar o 13º salário e a participação nos lucros, que recebemos em dezembro; e não em janeiro, quando o brasileiro já gastou tudo e tem ainda as despesas típicas de começo de ano como IPTU, IPVA, escola, etc" - explica Marino. O resultado da atitude antipática chegou à casa do executivo: "meu cunhado não me visita mais desde as demissões".


