Apoio do FMI ao calote equatoriano surpreende Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 26 (AE) - Seguindo a orientação dos governos do Grupo dos Sete (G-7) países industrializados para tratar igualmente credores privados e oficiais em crises de pagamentos de economias emergentes, o Fundo Monetário Internacional (FMI) indicou hoje, pela primeira vez, seu apoio à decisão do governo do Equador de adiar o pagamento de US$ 94 milhões em juros de bônus Brady e buscar uma renegociação de sua dívida externa de US$ 13 bilhões. A dívida inclui US$ 6 bilhões de bônus Brady, US$ 500 milhões em eurobônus e vários débitos com outros governos.
"Sob quaisquer circunstâncias, (a situação) exige o alívio da pressão dos desembolsos do serviço da dívida no balanço de pagamentos e o orçamento", afirmou Francisco Baker, um porta-voz do FMI, que é brasileiro. Baker acrescentou que as negociações, iniciadas na semana passada, entre economistas do FMI e autoridades equatorianas, para a preparação de um programa econômico apoiado por um crédito da insituição, vão muito bem.
"Um elemento crítico do programa (do FMI) será uma abordagem abrangente em relação aos credores oficiais e privados, para garantir o financimento necessário." O porta-voz acrescentou que "o tempo que os equatorianos buscam por meio do adiamento dos pagamentos dos bônus Brady precisa ser usado num arranjo cooperativo com os credores do Equador, para alcançar um acordo que seja consistente com as perspectivas financeiras do país e suas obrigações externas de médio prazo".
Uma fonte do mercado previu que o retorno da viabilidade financeira do Equador passa pelo perdão de uma parte substancial de sua dívida externa, que já supera o Produto Interno Bruto (PIB) do país. Se fosse honrado, o serviço da dívida consumiria, este ano, 42% do orçamento.
Assolado pelos efeitos econômicos do fenômeno climático El Niño, pela queda dos preços do petróleo e pelas consequências de anos seguidos de péssima administração da economia, o Equador enfrenta este ano a perspectiva de retração econômica de até 1% do PIB e inflação que pode bater em 60% - a mais alta da região. Na quarta-feira, o presidente equatoriano, Jamil Mahuad, já anunciara que a suspensão do pagamento dos US$ 94 milhões em juros - a primeira num bônus Brady - tinha o apoio do FMI.
A decisão do Fundo, de endossar o "default" reflete a preocupação da instituição e até do Tesouro dos Estados Unidos, que defendeu a renegociação das dívidas do país com o Clube de Paris, e dos demais países do G-7, que o controlam, de evitar as acusações feitas durante as crises financeiras do México e da ásia, sobre o uso de dinheiro de organizações internacionais para salvar credores privados.
Preocupação - Analistas e operadores do mercado deixaram clara ontem a apreensão do mercado diante da decisão do FMI. Eles divergiram na avaliação do possível impacto do primeiro episódio de inadimplência no mercado de Bradys sobre as demais economias emergentes, especialmente na América Latina. Mas apontaram o efeito do precedente como um dos problemas potenciais da solução que o setor oficial está disposto a tentar no Equador.
"O mercado perdeu totalmente a confiança no FMI", disse Simon Treacher, do Morgan Grenfell Asset Management. "Como eles deixaram isso (a deterioração da situação financeira no Equador) ocorrer, está além da minha compreensão", acrescentou. Para Treacher, "o Equador é um caso especial" e não está claro claro qual será o impacto da suspensão de pagamento no resto do mercado, até porque isso depende de como serão tratados, na renegociação da dívida, os papéis que o país apresentou como garantia dos bônus que o país não pode honrar.
Mas ele previu que o episódio "mudará a maneira do mercado operar" e tratar dívida securitizada e não securitizada. Treacher acredita, por exemplo, que os eurobônus, que devem ser incluídos - também pela primeira vez - na renegociação da dívida do Equador, perderão o status de papel absolutamente garantido e passarão a ser considerados como o mesmo que um bônus Brady securitizado - "não serão mais totalmente seguros".
Paul Dixon, o principal estrategista do banco de investimentos Lehman Brothers para mercados emergentes, acha que o mercado reconhece que o Equador "é um lugar único" e saberá diferenciar os países da região, mas compartilha os temores de Treacher.
"A preocupação é que, se essa reestruturação da dívida do Equador for relativamente indolor e rápida e o país renegociar toda a sua dívida, é possível que outros países sigam o exemplo."
O primeiro da lista é a Venezuela - "não porque não possam pagar, pois têm a receita do petróleo, mas porque têm falado de tempos em tempos em reestruturar seus bônus Brady e a situação política do país agora cria pressão nessa direção".
Para Dixon, o calote do Equador "terá claramente um impacto negativo no sentimento do mercado e ocorre no pior momento de um ciclo de crédito, que já está atingindo toda a América Latina".
O economista Ernest "Chip" Brown, do banco de investimentos Morgan Stanley Deand Witter, é menos pessimista. "O efeito inicial do anúncio oficial de que o Equador não efetuou o pagamento de juros esperado será forte e provavelmente será difícil fazer negócios e levantar dinheiro nos primeiros dias, ou semanas", disse ele. "Mas a situação se normalizará em questão de um mês, porque o Equador claramente não é o primeiro dominó a cair e empurar outros - é um país único, com problemas muito diferentes dos do Brasil e da Argentina, que não fizeram muito em termos de reformas econômicas, e os participantes do mercado sabem disso".
Segundo Brown, é necessário também fazer uma distinção entre o dano que o episódio equatoriano causará para os preços dos papéis da América Latina e de outros mercados emergentes e seu impacto sobre o aspecto institucional do mercado de bônus Brady. "Não creio que haverá dano maior ao mercado de títulos da dívida, mas não tenho dúvida de que o impacto sobre o preço será considerável", disse ele.





