São Paulo, 28 (AE) - Empresários brasileiros reagiram negativamente à decisão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de financiar empresas estrangeiras em leilões de privatização, como ocorreu com a AES. A empresa norte-americana acaba de comprar a Cesp Tietê por R$ 938 milhões e vai financiar R$ 360 milhões com recursos provenientes do BNDES.
Os empresários argumentam que há escassez de crédito para as empresas nacionais. Além disso, eles ponderam que não se deve financiar negócios com dinheiro do BNDES quando os ativos apenas trocam de mãos, sem que ocorra expansão da capacidade produtiva e criação de novos postos de trabalho. É que boa parte do dinheiro usado pelo BNDES tem origem no Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT), uma contribuição compulsória sobre a população que está empregada na economia formal.
"Acho que é uma competição desleal e fiquei surpreso com o apoio do BNDES", afirma o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. Ele pondera, no entanto, que desconhece as condições do financiamento e os planos de investimentos da companhia norte-americana. Piva argumenta que as empresas estrangeiras têm condições de buscar linhas de crédito no exterior, enquanto o BNDES é o único banco de fomento para as empresas brasileiras, sobretudo para as pequenas e médias empresas.
"Não cabe financiar empresa estrangeira para a compra de companhias públicas ou privadas", diz o presidente do Conselho do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Eugênio Staub. Para ele, a visão do Iedi é que o BNDES dê prioridade para as empresas nacionais porque os recursos disponíveis são escassos.
Staub ressalva que a concessão de crédito do BNDES para empresas estrangeiras só se justificaria se houvesse criação de emprego e abertura de uma nova unidade de produção, uma fábrica ou usina, no caso AES. "Financiar companhias nacionais é uma questão de princípio."
Hedge - Uma das críticas dos empresários é de que, ao emprestar dinheiro para companhias estrangeiras, o BNDES estaria dando proteção (hedge) a essas empresas com relação a prováveis mudanças no câmbio. Ao levantar crédito no País, as empresas estrangeiras estariam colocando na mesma moeda a sua receita e a sua dívida, livrando-se do risco de ter um financiamento em dólar e correr o risco de uma desvalorização cambial.
Na análise dos empresários, o BNDES fez várias operações para empresas estrangeiras bancando o risco cambial, cobrando Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e um spread pelo uso do dinheiro. Segundo o BNDES, essa crítica não procede no caso do financimanto concedido pelo banco para a AES. O banco informa, por meio da sua Assessoria de Imprensa, que a companhia norte-americana terá o valor da sua dívida corrigida pela variação de uma cesta de moedas, portanto sujeita a variações cambiais, acrescida de um spread de 5% ao ano.

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