Paris, 22 (AE) - As eleições presidenciais russas vão se dar daqui a quatro dias. Não é preciso ter uma "bola de cristal" para anunciar o vencedor: Vladimir Putin, presidente interino, após a debandada de seu "padrinho" Bóris Yeltsin, será o presidente.
O homem é misterioso: introvertido, antigo coronel da KGB, frio, no entanto seduz a maior parte dos políticos europeus que visitam Moscou (Tony Blair tornou-se lírico). Todavia, essas impressões permanecem vagas, mas isso não tem importância, pois já se sabe quem serão os vencedores das urnas russas: a "guerra da Chechênia" e o exército.
As atividades diárias de Putin não deixam a menor dúvida: a TV mostra-o no Cáucaso, onde ele condecora um grande número de pára- quedistas, sob aclamações. No dia seguinte, assiste-se à sua descida de um caça vestido como piloto de guerra. Diariamente, reportagens na TV enchem as telas. Nelas, os soldados são os heróis e os salvadores da Rússia. Putin está lá, no meio dos soldados uniformizados. As imagens ressoam com bandeiras, desfiles, bandeirolas e figuras marciais.
Putin não se contenta com essa enorme publicidade feita para o exército. Ele trata seus soldados como uma mãe: esse exército, tão orgulhoso no tempo de Stálin e que tinha 5 milhões de soldados em 1980, não tem mais do que 1,2 milhões, decompostos, desarmados, pobres. Até mesmo os generais andavam como mendigos. Mas Putin (que também é militar) chegou e tudo mudou: o orçamento da Defesa deu um salto de 25 bilhões de rubros para 63 bilhões. O setor militar- industrial recebe encomendas em massa. E Putin acaba de restaurar uma regra que havia sido extinta em 1991: os alunos dos liceus vão, como nos tempos da União Soviética, seguir uma "preparação militar inicial".
Ao mesmo tempo, Putin "deu" aos militares a Chechênia. Foi uma maneira, para o exército, de reencontrar sua "honra perdida", perdida tanto durante operações punitivas dos soviéticos contra determinadas democracias populares, por ocasião da primeira guerra lamentável da Chechênia, sob Yeltsin, quando o exército tornou-se o próprio centro da corrupção. Putin devolveu o orgulho aos soldados.
Portanto, não há dúvida em relação ao voto dos soldados nas eleições presidenciais. Mas não é só isso: os russos, como qualquer pessoa no mundo, amam ao mesmo tempo sua pátria e sua estrutura, seu exército. A decadência desse exército, há dez anos, ofendeu a maior parte dos russos (do mesmo modo que a ignomínia da corrupção financeira do círculo de Yeltsin, dos barões do regime e dos mafiosos).
O cálculo de Putin foi, então, exato: restituindo a força e o orgulho ao exército russo, restituiu a esperança aos cidadãos. É preciso, então, reconhecer que Putin se mostrou, até aqui, um grande jogador.
Resta saber o que fará com seu "poder" e com esse exército que produz sua energia: ele vai se limitar a reestruturar o grande corpo sem vigor, fatigado e indisposto da Rússia, graças ao renascimento do exército? Ou cairá em mais uma tentação dissimulada de que algumas propostas que manteve anteriormente, quando estava na KGB, podem ser plausíveis: a "tentação bonapartista" e o estabelecimento de um regime de força? No momento, ninguém poderia prever esse futuro. Mas uma coisa é certa: o homem não deve ser subestimado.
De qualquer maneira, uma mancha permanecerá em sua subida ao poder: a "guerra suja" da Chechênia que constituiu sua plataforma de lançamento.
Hoje mesmo, um texto violento circula em toda a Europa denunciando essa guerra e seu condutor Vladimir Putin: "Grosny destruída, corpos torturados, povo massacrado, silêncio internacional... Um terror habita a Europa".
Esse texto foi assinado pelos maiores nomes europeus: Jean dOrmesson, Jean François Revel, Jorge Semprun, Alain Touraine, Jean-Pierre Vernant, em nome da França, Jean-Luc Godard e Umberto Eco, John le Carré, Bernardo Bertolucci, Barbara Hendricks, Richard Avedon e Noam Chomsky pelos outros países. E muitos, muitos outros.

mockup