Aplausos e vaias marcam apresentação de filmes em Cannes Do enviado especial LUIZ CARLOS MERTEN
Cannes, França, 18 (AE) - Aplausos e vaias marcaram hoje (18) a apresentação dos filmes concorrentes no 52º Festival International du Film. As vaias foram para LHumanité, do francês Bruno Dumont. Os aplausos para Craddle Will Rock, de Tim Robbins. O filme francês é maravilhoso, o americano, um tanto histérico: começa mal, mas termina bem, o que ajuda a entender a euforia do público que o aplaudiu tanto, no fim da sessão.
Dumont é o diretor de A Vida de Jesus, que passou aqui em Cannes em 1997 e ganhou o prêmio de melhor filme da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Dumont é o Robert Bresson dos anos 90. Filma com extremo rigor, sem música nem atores profissionais. Mas não é só o método que o aproxima do grande cineasta. Os temas, também. Dumont também é atraído pela graça e pela dificuldade de comunicação. Só alheando-se ao extremo, o homem consegue comunicar-se em seus filmes.
Em A Vida de Jesus, o protagonista era um epilético. Em LHumanité, é um policial de raciocínio tão lento que o situa nos limites do retardamento mental. O filme foi rodado na região de Flandres, mais exatamente na cidadezinha de Bailleuil, que também forneceu o quadro para A Vida de Jesus. Dumont escolheu mostrar na tela a França profunda. O tempo parece parado nesse lugar em que os habitantes ficam em frente de suas casas, vendo a vida passar. É um filme sobre a vida e a morte, diz o diretor. E adquire uma dimensão metafísica ao distanciar-se da realidade para chegar à causa primal do sofrimento do homem - o corpo. É porque têm apetites que não conseguem satisfazer que as pessoas sofrem tanto nos filmes do diretor.
O policial, De Winter, é o mesmo que interrogava o personagem de A Vida de Jesus, no fim. Investiga o estupro e o assassinato de uma menina de 11 anos. "Quem pode ter praticado semelhante horror?", pergunta-se. Como Bresson, Dumont liga seu cinema à experiência literária de Georges Bernanos. Citando o autor, define o criminoso como a expressão da "banalidade do mal, a sua modernidade."
Tim Robbins está aqui em Cannes com a mulher, Susan Sarandon. Seu filme também é interpretado por Vanessa Redgrave, Emily Watson e Joan Cusack. São todas ótimas. Craddle Will Rock confirma o diretor como uma rara personalidade "de esquerda" no cinema americano atual. O filme passa-se nos anos 30, durante a depressão econômica, tratando de um grupo teatral, o Federal Theater. Orson Welles era o diretor do grupo.
Trabalhava com John Houseman. Cradlle Will Rock trata da luta desses artistas por pão e liberdade de expressão. Há outras figuras célebres em cena: o milionário Nelson Rockfeller, o muralista mexicano Diego Rivera e Frida Kahlo.
Logo no começo, há uma advertência: baseado "quase sempre" em fatos reais. Esses fatos são orquestrados para chegar no fim a uma afirmação da força das classe operária contra o capital. Boa parte do filme trata das acusações de comunismo que pesam sobre os artistas. É como se Tim Robbins, imitando Warren Beatty
quisesse fazer o seu Reds. Robbins admite que se baseou na sua admiração por Welles e na própria experiência teatral, à frente do Actors Gang, com o qual montou Ubu Roi nos Estados Unidos. Ele e Susan foram muito aplaudidos ao dizer que pretendem continuar usando sua força de celebridades para insistir em novas denúncias políticas e sociais, apoiando o que definiram como "causas justas".
O importante, aqui em Cannes, é não se prender aos filmes da competição, acompanhando também outras seções. Foi assim que, em Un Certain Tegard, passou ontem o que talvez seja o filme mais impressionante deste festival: a produção ítalo-argentina Garage Olimpo, de Marco Bechis. O título refere-se a uma garagem que serve como fachada para um grupo paramilitar que participa da repressão, durante a ditadura argentina. Quando você achava que não havia mais nada a denunciar sobre o horror daquela ditadura, Bechis surpreende com imagens chocantes como a dos aviões que desovam no mar os prisioneiros políticos. É um filme que vai fundo na idéia de mostrar que, por trás do discurso patriótico, a ditadura não passou de uma imensa teia de corrupção e violência.





