Buenos Aires, 03 (AE) - A possibilidade de que o Brasil leve a Argentina à Organização Mundial do Comércio (OMC) por causa de medidas que restringem a entrada de calçados brasileiros neste país está causando expectativa. Com muito tato, tanto no governo argentino quanto no setor empresarial, prefere-se esperar que essa possibilidade não passe de uma ameaça.
Fontes da Secretaria de Indústria sustentaram que por enquanto não há nenhuma posição tomada para um eventual pedido brasileiro de levar a questão à OMC.
Nos últimos anos, as vendas brasileiras de calçados para a Argentina aumentaram progressivamente, para o temor dos produtores argentinos. No ano passado, o Brasil vendeu 11 milhões de pares neste país, e esperava-se que em 1999 o volume chegasse a 15 milhões de pares. Os empresários argentinos propuseram que o Brasil empreendesse uma insólita auto-limitação de exportações, e que só vendesse no país 7 milhões de pares de calçados. Os empresários brasileiros não aceitaram que a cota fosse inferior ao vendido no ano passado. Segundo os argentinos, as importações de calçados provenientes do Brasil aumentaram 70% neste ano por causa da desvalorização do real.
Na liderança da Câmara da Indústria do Calçado (CIC) continua-se esperando a reunião programada para Buenos Aires com a Abicalçado no próximo dia 10. "Por enquanto não temos nenhum comunicado oficial da Abicalçados", disse à Agência Estado Carlos Bueno, presidente da CIC. O líder dos empresários dos calçados afirmou não ter notícia alguma de que o Brasil quisesse suspender a reunião programada. "Do nosso lado, a reunião está mantida, já que estamos em negociações", disse.
Segundo Bueno, a recente reunião das duas câmaras setoriais em Montevidéu, Uruguai, foi totalmente infrutífera: "o Brasil se recusou a falar sobre cotas e prazos enquanto estivessem existindo as resoluções 508 e 977". A resolução 508 trata da etiquetação dos calçados importados, com a descrição da origem e componentes, e que deve ser certificada por um órgão argentino. A resolução 977 refere-se ao requisito de licenças prévias para a importação do calçado brasileiro.
O presidente do CIC afirmou que a etiquetação era necessária: "É uma carga para as empresas argentinas, mas é uma defesa para o consumidor. Assim ele poderá saber que produto está adquirindo".
Sobre as licenças prévias, Bueno considera que embora "o Brasil reclame delas, também as possui, embora não no setor de calçados". O empresário disse que "não dá para discutir as armas de um se o outro também as aplica". O presidente da Câmara de Importadores da Calçados da Argentina, Juan Dumas, declarou que está contra as medidas restritivas argentinas, e afirmou que as resoluções que as aplicam "são grosseiras medidas para-alfandegárias. A intenção destas resoluções é forçar o Brasil e negociar cotas".

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