São Paulo, 28 (AE) - Os pacientes particulares e de convênio continuam enfrentando filas bem menores do que os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimento no Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo. Isso ainda ocorre, apesar de o Ministério Público ter aberto, em agosto, uma ação civil pública contra a instituição pela chamada fila dupla.
Na radiologia, por exemplo, um paciente do SUS pode esperar quatro meses para fazer um raio X, depois de passar a noite na fila para marcar o exame - o que um paciente de convênio leva poucos dias para conseguir. A situação repete-se nas filas para ressonância magnética, exames laboratoriais, consultas e mesmo cirurgias. Segundo o presidente da Associação de Funcionários do HC, Nilson Primo, o hospital instrui seu pessoal a passar os pacientes particulares na frente dos atendidos pelo SUS.
O superintendente do HC, José DElia Filho, admite a continuidade da fila dupla e a discrepância entre os prazos de atendimento, mas garante que os pacientes do SUS não teriam nada a ganhar com o fim dessa diferenciação. "Se alocássemos todos os recursos hoje destinados ao atendimento particular para uma fila única, a redução do tempo de espera dos pacientes do SUS seria ínfima, enquanto a queda na qualidade do atendimento seria importante em razão da queda no faturamento", diz DElia, assinalando que seria impossível atrair pacientes particulares com filas tão longas.
Segundo ele, um paciente do SUS, que hoje tem de esperar 120 dias para um exame, esperaria 114 dias com a fila única. Os pacientes particulares e de convênios representam apenas 4,8% do total, mas são responsáveis por cerca de 30% do faturamento da instituição, o que equivaleu a R$ 80 milhões em 1999. Por causa disso, DElia garante que a instituição não tem nenhum projeto para acabar com a fila dupla, como quer o Ministério Público. "Estamos discutindo na Justiça porque não podemos prescindir desse dinheiro", diz DElia.
Diversos segmentos sociais, entretanto, consideram ilegal a fila dupla, uma vez que a Constituição estabelece a universalidade, integralidade e equidade do atendimento do SUS. "É um absurdo usar recursos públicos para atender melhor pacientes privados", argumenta Erivalter de Oliveira, presidente do Sindicato dos Médicos. Na sua opinião, a fila dupla é apenas um subterfúgio para o Estado se eximir de suas responsabilidades com relação à saúde.
Num ponto, porém, Erivalter concorda com DElia: o tempo excessivo de espera que os pacientes do SUS enfrentam está muito mais relacionado à precariedade do atendimento primário e secundário prestado na rede pública do que à fila dupla. "O HC deveria concentrar-se no atendimento terciário", diz DElia. "Se a rede cumprisse esse seu papel, nossas filas se reduziriam muito".

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