Tallinn, Estônia (AE-AP) - No dia 14 de junho de 1941, o jovem Lennart Meri foi acordado pelo som forte de botas de combate na entrada de sua casa. Soldados soviéticos haviam acabado de entrar no local para deportá-lo, e a sua família.
Lennart, sua mãe, pai e seu jovem irmão tiveram 20 minutos para arrumar suas coisas e então foram levados até um trem e jogados para dentro. Era um vagão de madeira, fabricado para o transporte de gado, com barras de ferro instaladas e um buraco aberto no chão que servia como latrina.
O vagão já estava cheio de mulheres e crianças, lembrou Meri, hoje com 71 anos e presidente da Estônia desde 1992, durante uma entrevista. A carga humana foi dirigida à Sibéria, e muitos não voltariam vivos.
Praticamente todo mundo na Estônia, Letônia e Lituânia pode contar a história de sua deportação ou a de parentes próximos nos anos que se seguiram à ocupação soviética das três repúblicas bálticas, ocorrida em 1940.
Mas, ao contrário do que acontece nas demais 12 repúblicas soviéticas, tais reminiscências não são apenas material para histórias. Aqui elas são testemunhas, enquanto promotores perseguem suspeitos do terror estalinista.
A Estônia condenou quatro agentes estalinistas no ano passado. A Letônia condenou três homens e um ex-agente secreto da polícia de 85 anos, Yevgeny Savenko está sendo julgado por assinar ordens de prisão que levaram à deportação e execução de dezenas de letões.
Entre os estonianos, há grande apoio para este tipo de processo. "Algumas vezes, eu penso deixa pra lá", diz Salme Kulvere, que foi deportado em 1949, quando tinha 16 anos. "Mas quando eu lembro e o quão horrível foi a deportação, não entendo como esses crimes podem ser varridos para debaixo do tapete".
Os julgamentos deixaram a Rússia furiosa. Muitos russos dizem que os três estados bálticos estão pedindo vingança contra homens velhos e doentes que geralmente possuem passaportes russos. O presidente russo Vladimir Putin disse que a recente condenação, na Letônia, de Vasily Kononov, um cidadão russo de 77 anos, considerado herói de guerra, foi um veredicto cruel e injusto contra um "homem idoso e seriamente doente".
Kononov foi condenado a seis anos de prisão por executar nove civis quando fazia parte da guerrilha soviética durante a ocupação alemã na Letônia, que foi de 1941 a 1944. Ele argumenta que os civis foram pegos durante fogo cruzado com as tropas nazistas.
Oficiais bálticos desconsideram as críticas da Rússia, dizendo que seu grande vizinho falhou em confrontar honestamente as atrocidades cometidas pelos russos durante o reinado de Stalin.
Eerik Kross, que inspeciona a unidade estoniana de caça a velhos agentes soviéticos, lembrou que no Tribunal de Nuremberg, em 1946, e na Convenção de Genebra de 1949. Com os crimes nazistas na cabeça, Stalin ajudou desenhar ambos.
"Mas se você ler estas condenações, não há dúvidas de que elas se aplicam aos crimes de Stalin", diz Kross. "Não estamos falando de vingança. Nós somos obrigados a fazer o que estamos fazendo".
O primeiro-ministro estoniano, Mart Laar, disse que os procedimentos têm sidos justos e que ele não tem pena dos ex-agentes.
"Nenhum desses homens jamais falou: Eu entendo que o que eu fiz foi errado e eu sinto muito", disse Laar. "Eles insinuam que seus feitos foram apenas o cumprimento de ordens. Então, eu não tenho qualquer simpatia por eles".
Os estados bálticos vêm sendo acusado de mostrar menos zelo na perseguição de pessoas suspeitas de serem nazistas. Centenas de colaboradores nazistas foram julgados e executados nos estados bálticos pelas autoridades soviéticas depois da guerra, mas ninguém foi condenado desde o colapso da União Soviética em 1991
que trouxe independência para a região.
Laar disse que os estados bálticos estão tentando corrigir um desequilíbrio. "Enquanto o mundo reconheceu os horrores do nazismo, as pessoas não entenderam os horrores do comunismo", diz ele. "Estes processos estão dando aos crimes comunistas a atenção que eles merecem".
Meri, cuja família conseguiu voltar da Sibéria depois da Segunda Guerra Mundial, disse que a razão mais importante para os julgamentos foi trazer à tona o período estalinista.
"Nós precisamos compreender plenamente este aspecto do nosso passado, estar absolutamente certo de que isso não se repetirá em nossas vidas ou nas dos meus filhos e netos", disse ele.

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