Apenas quatro movimentos participam de reunião para discutir reforma agrária
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de março de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 12 (AE) - Os principais movimentos sociais do País não participaram hoje da reunião para apresentação de sugestões à proposta do governo de mudança na reforma agrária, que prevê o aumento de juros de empréstimos e restrições a financiamentos subsidiados. Das 30 entidades convidadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), apenas quatro enviaram representantes a Brasília, para a reunião com técnicos do governo.
De acordo com o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, a ausência de representantes de movimentos sociais serve para identificar os que só querem criticar o governo, antes mesmo de conhecer as propostas e ter a oportunidade de mudá-las. Para ele, as entidades que se recusaram a participar do encontro estão "desqualificados" para fazer críticas ao governo.
Atenderam o convite representantes do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), do Movimento de Agricultura dos Sem-Terra (MAST), do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) e da Social Democracia Sindical (SDS). As lideranças mais conhecidas pela defesa da reforma agrária, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), não foram à reunião, que durou apenas três das oito horas previstas.
Questionado sobre a ausência do MST e da CNBB, o Jungamnn disse que se sentia "mais do que frustrado". O ministro considerou a ausência dos movimentos uma "má demonstração de democracia". Na terça-feira, as entidades convidadas haviam recusado o convite.
Sugestões- O presidente interino do Incra, Nélson Borges
disse que o governo não vai "enfiar goela abaixo" dos movimentos sociais o pacote, que deve ser anunciado a partir do dia 22. Ele afirmou que o governo ainda está aberto às sugestões do MST e de todos os movimentos e representantes da sociedade civil que queiram propor alterações. "Se estes movimentos comparecessem às reuniões iriam combater com mais argumento", disse Borges.
O presidente do Incra deixou claro que o governo não aceita discutir a extinção do Programa de Crédito Especial da Reforma Agrária (Procera), que será fundido com o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Esta discussão, segundo Borges, está "superada", já que os assentados "não estão conseguindo fazer a subsistência e ao mesmo tempo gerar renda para amortizar os financiamentos".
Críticas - Entre os representantes de movimentos sociais que compareceram à reunião do Incra, o que fez críticas mais contundentes ao governo foi o diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Cândido Grzybowski. Segundo ele, o governo federal passou mais de quatro anos "desprezando" os movimentos sociais e agora, "em função de uma moratória social", está "colhendo a tempestade que plantou".
Grzybowski disse que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, em especial o ministro Jungmann, foram "antidemocráticos" com os movimentos sociais. "Vim aqui de consciência pesada", disse Grzybowski. "Só vim porque eu sabia que se o Betinho estivesse vivo ele viria", disse, referindo-se ao sociólogo Herbert de Souza.
Até o líder do MAST, Ailton Barbosa, que se considera mais "moderado" do que as lideranças do MST, fez críticas ao governo federal, afirmando que, mais importante do que discutir as transformações no programa de reforma agrária, é a aceleração da liberação de recursos para os assentados. "A liberação de recursos demora até seis meses".


