Londres, 26 (AE-REUTERS) - Desde que começaram os ataques aéreos da Otan contra a Iugoslávia, o refrão dos líderes políticos e militares tem sido que não haverá tropas em terra - mas muitos analistas de defesa dizem que a crise de Kosovo não será resolvida apenas com bombas.
"Estou esperando para ver sinais de um tratamento de duas vias- que irá haver bombardeios com algo mais", afirmou Simon King, do Centro para Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Universidade de Lancaster.
"Bombardear por si só, eu acredito, não levará a nada".
O general britânico Sir Michael Rose, ex-comandante das forças de paz das Nações Unidas na Bósnia, afirmou que existem limitações do que pode ser atingido através das bombas.
"A Otan precisa urgentemente desenvolver uma estratégia coerente de longo prazo capaz de realizar o desejado objetivo político na Sérvia - algo que até agora ela não tem conseguido fazer", escreveu Rose num comentário no jornal Times.
Enquanto aviões da Otan preparavam-se para um terceiro dia de ataques contra alvos sérvios, o secretário de Defesa britânico, George Robertson, reiterou que a aliança estava "plenamente preparada para manter os ataques por quanto tempo for necessário", mas descartou o envio de tropas terrestres para Kosovo em ordem de fazer curvar o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic.
"Claramente, pode levar algum tempo para frear a máquina militar de Milosevic com a força aérea. Mas isto não significa que forças em terra sejam necessárias para alcançarmos nossos objetivos", disse ele a repórteres.
A Rússia, inimiga na Guerra Fria da Otan, se opõe veementemente aos ataques aéreos. Fissuras também surgiram no bastião da Otan, com o primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema, pedindo na quinta- feira pelo "retorno ao caminho político", e com o governo da Grécia defendendo hoje o fim dos ataques.
Mas King disse que negociações pouco podem fazer para evitar ataques de forças sérvias contra vilas albanesas étnicas.
"O problema é que retornar à mesa de negociações não fará parar efetivamente a carnificina", afirmou ele. "(Milosevic) precisa da crise para concentrar a moral nacional... Os bombardeios estão beneficiando Milosevic, não tem dúvida".
Tanto King quanto Rose sublinharam que a ação da Otan requer apoio público - particularmente para uma campanha prolongada.
Se as tropas terrestres da Otan tiverem de entrar na Iugoslávia, elas devem estar preparadas para ficarem "por décadas", dado a natureza das forças de Milosevic, disse King.
"Toda a estrutura do exército nacional iugoslavo, toda sua postura, é simplesmente permitir que o invasor invada e fazer com que a situação seja extremamente desconfortável para o ocupante", afirmou ele.
"É um quebra-cabeças. E a idéia de que com a ação aérea você pode lidar com ele numa distância segura é muito implausível".
Richard Basset, da Janes Defence Weekly, afirmou que a região continua a sofrer de problemas de décadas provocados pelas políticas das grandes potências e a aspiração de vários grupos étnicos.
"Na esteira dos ataques da Otan contra a Iugoslávia, os Bálcãs terminam o século quase como começaram - uma expressão da rivalidade das grandes potências e uma fonte de conflitos potencialmente desestabilizadores", escreveu ele num artigo publicado hoje.
Qualquer uso eventual de forças de paz em Kosovo seria afetado não apenas pela recusa de Belgrado em permitir a entrada de uma força puramente da Otan, mas também por preocupações da Rússia sobre uma dominação dos EUA na região, escreveu ele.
"É, entretanto, bastante possível ver uma repartição de fato de Kosovo em zonas separadas não muito diferentes daquelas que dividiram Berlim, Viena e Trieste de seu interior depois de 1945", disse Bassett.

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