Apenas acordo parcial para Kosovo Do correspondente REALI JÚNIOR
Paris, 23 (AE) - Após duas semanas de negociações intensas e complexas, a Confêrencia de Rambouillet (perto de Paris) encerrou hoje (23) seus trabalhos sem ter alcançado plenamente seus objetivos: aprovação de um plano de paz para Kosovo. Mesmo obtendo consenso sobre a proposta política do plano apresentado pelo Grupo de Contato (ampla autonomia para a província), as partes, sérvios e albaneses étnicos, deixaram a capital francesa sem assinar, como era esperado, um acordo global. Isso apesar das ameaças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de bombardear objetivos militares na Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) e das pressões da diplomacia ocidental, particularmente dos EUA, França e Grã- Bretanha.
Uma nova conferência foi convocada para 15 de março na capital francesa, quando se espera que as partes possam chegar a um completo entendimento. Essa solução afasta, temporariamente, a ameaça de ataques aéreos.
Os sérvios continuam rejeitando a presença de forças terrestres da Otan em seu território, a não ser que os albaneses étnicos (maioria esmagadora da população) desistam de reivindicar a independência do Kosovo - o que não ocorreu durante o encontro. Os kosovares insistem na convocação de um referendo sobre a independência depois de três anos de autonomia. Essa reivindicação foi rejeitada pelo Grupo de Contato, pois contribuiria, segundo o chanceler francês, Hubert Védrine, para desequilibrar os Bálcãs, podendo estimular outros nacionalismos regionais.
O grupo guerrilheiro anti-sérvio Exército de Libertação de Kosovo (ELK) também não aceita ser desarmado, como prevê o projeto de acordo. Por outro lado, o ELK deixou claro que não assinará nenhum documento sem prévia consulta às bases.
Dessa forma, o Grupo de Contato só obteve um acordo mínimo de princípios, evitando a ruptura das negociações e deixando a solução dos aspectos fundamentais para a nova conferência, segundo anunciaram conjuntamente os dois presidentes da Conferência de Rambouillet, os chanceleres Védrine e Robin Cook (Grã Bretanha), apoiados pela secretária de Estado americana, Madeleine Albright. Os três procuraram justificar a saída encontrada após os parcos resultados alcançados - apesar do cenário armado com a importante mobilização de forças navais, aéreas e terrestres.
O acordo de princípios foi apenas verbal e sobre alguns pontos do projeto. As duas partes não assinaram nenhum documento e enviaram ao Grupo de Contato duas cartas diferentes, comentando e interpretando o texto de base divulgado. Ao apresentar a conclusão do encontro, Védrine disse que os progressos dos últimos 15 dias foram muito mais importantes do que os obtidos nos últimos 15 anos em Kosovo. Ele cita o princípio de uma autonomia substancial para Kosovo aceito por Belgrado.
Em Washington, o presidente Bill Clinton também ressaltou os "progressos" obtidos, acrescentando, porém, que "persistem" sérias divergências entre as partes. Ele descartou a possibilidade, pelo menos por enquanto, de um bombardeio por parte da Força Aérea da Otan. "Tudo vai depender do comportamento dos sérvios", disse.
Em Kosovo, o êxodo continua. Pelo menos 9 mil albaneses étnicos deixaram suas casas desde segunda-feira, por temer novos ataques sérvios e bombardeios da Otan, seguindo em direção à Macedônia.





