Curitiba- Um dos mapas mais detalhados já produzidos sobre o estado de conservação da Amazônia mostra que 47% da floresta já foi desmatada, ocupada ou alterada pelo homem. O estudo, coordenado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), vai além das imagens de satélite usadas para os cálculos anuais de desmatamento, que mostram apenas a diferença entre áreas desmatadas (17%) e não desmatadas (83%).
''Temos de sair dessa dicotomia; o quadro real da Amazônia é muito mais complexo'', disse o pesquisador Adalberto Veríssimo. ''Além dos 17% desmatados, há, no mínimo, mais 30% da floresta pressionada.'' Apenas 53% dela permanece intacta.
O estudo combina imagens de satélite com o mapeamento de indicadores de impacto ambiental, como áreas urbanas, agropecuária, assentamentos, mineração e áreas de fogo recorrente. ''A floresta 'intacta' vista do espaço é apenas uma camuflagem'', diz Veríssimo. ''Por baixo da copa das árvores, muita coisa está acontecendo.''
Dois indicadores de pressão ainda ficaram de fora: estradas ilegais e extração seletiva de madeira - ou seja, o corte de espécies selecionadas de alto valor, sem a remoção completa da floresta. Ambos são muito difíceis de detectar por imagens de satélite, mas deverão ser incluídos na próxima edição do relatório, em 2007. ''A tendência é que essa estimativa de 47% aumente.''
Os pesquisadores esperam que as informações sejam usadas na elaboração de políticas públicas, identificando áreas onde a pressão humana ameaça a sobrevivência da floresta. ''No final, é um mapa de vulnerabilidade'', afirma Paulo Barreto, primeiro autor do estudo. ''Os números do desmatamento divulgados ano a ano são importantes, mas precisamos de ferramentas preditivas, para bloquear o processo antes.''
O estudo mostra que quase metade (48%) das áreas consideradas prioritárias para conservação da biodiversidade - e, portanto, para a criação de unidades de conservação - já está sob alguma forma de pressão. Os impactos mais significativos ocorrem ao longo de estradas e no entorno de áreas urbanas. Cerca de 80% da área total desmatada está a menos de 30 quilômetros de uma estrada legal.
O relatório, divulgado na 8 Conferência das Partes (COP-8) da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, em Curitiba, foi feito em parceria com o Instituto de Recursos Mundiais (WRI), de Washington.

mockup