Apatia marca eleições argentinas Da enviada especial DENISE NEUMANN
Buenos Aires, 24 (AE) - Nada nas ruas dizia que hoje (24) os argentinos estavam escolhendo quem seria o novo presidente do país. Pela capital e pelas cidades vizinhas, nem um único carro com adesivos, uma única bandeira ou camiseta política indicavam que haviam eleições na Argentina.
Nas esquinas, bonecos imitando os personagens do desenho animado Teletubies disputavam espaço com escassas e já puídas faixas de candidatos à governador ou à presidente.
Seguindo o tom da campanha, a apatia tomou conta do país no dia das eleições, tanto na turística Recoleta, como nas cidades vizinhas e pobres de La Matanza e Lomas de Zamora, onde o candidato peronista, Eduardo Duhalde, vota em uma escola pública de 110 anos, muito abandonada.
Em muitos distritos eleitorais, as urnas foram abertas depois das 9 horas, uma hora após o horário oficial. "Que democracia é essa que um homem vem aqui cumprir seu dever e não pode porque eles não estão cumprindo o seu dever", reclamou o aposentado Marcelo Belli, 76 anos, que chegou ao seu local de votação, no distrito de San Justo, em La Matanza, às seis e meia da manhã e já estava há quase três horas esperando pela abertura da votação na sua sessão eleitoral.
De terno e gravata, Belli apenas acompanhava os homens que batiam palmas para demonstrar que estavam descontentes com o atraso, sem ultrapassar a marca de giz feita na calçada, indicando qual era a fila em que deviam esperar do lado de fora da escola pública. "Sempre há algum atraso, mas este ano já está exagerado", emendou Osvaldo Benedetti, que da mesma forma que Belli queria voltar logo para casa para esperar pelo "talharini" - que sua mulher faria para o almoço - e pelo jogo do Pumas, time de rugby que disputaria a tarde mais uma partida pelo campeonato mundial deste esporte.
Dizendo-se desiludido, Benedetti diz que não votaria se o voto não fosse "uma obrigação". A falta de perspectiva de que alguma mudança profunda aconteça também é o motivo alegado por Belli para tanta apatia. "Vai mudar o condutor, mas não sei se vai mudar a nossa situação", avalia.
Na Argentina que está entrando no século 21, homens e mulheres ainda fazem filas separadas. Para indicá-las, a lista de homens aptos a votar é impressa em papel azul e a das mulheres, em papel rosa. Todos obedecem essa formação. Em outra sessão de San Justo, uma exceção era Esteban Orlando, que de olhos pintados, tamancos e pulseiras, fez questão de ficar ao lado de sua mãe na fila feminina.
Sob o olhar reprovador da mãe peronista, Elza Centurion, afirmou que não votaria se o voto não fosse obrigatório. Eles foram os primeiros a chegar no local - 6h05 - e até às 8h30 ainda não haviam conseguido votar por causa do atraso. Um dos poucos que não estava incomodado com o atraso era o vendedor de café Ramón Pereira. "Assim é mais fácil vender", comemorou.
Uma das esperanças de Elza com as eleições é que o filho arrume um emprego. A localidade de San Justo está em uma das regiões com maior índice de desemprego: 17,5% ante uma média nacional de 14,8%. Ali, um supermercado Walt Mart foi construído no prédio onde ficava uma antiga fábrica, a Têxtil Oeste, que empregava 5 mil pessoas. Hoje, o supermercado emprega 500.
Em Esteban Echeverria, os fiscais da Aliança UCR-Frepaso e do partido Ação pela República reclamavam que às cédulas dos dois não foram entregues pelo Correio Argentino, que hoje é uma empresa privada. "O início da votação atrasou uma hora e meia", contou Juan Prgich, candidato à Intendente (prefeito) deste distrito pela Ação pela República.
Na fila de votação de uma das sessões eleitorais de Esteban Echeverria, os irmãos Pablo Mauro e Damián Mauro resolveram votar cedo para não correr o risco de perder a transmissão da partida dos Pumas.
Nem mesmo o fato de votar para presidente pela primeira vez, animou Mauro, que está com 19 anos.





